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Açúcar, a colônia contemporânea


Uma terra assombrada por fantasmas, esse é o Brasil que fica evidente em Açúcar, longa dirigido pelos pernambucanos Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro. Não se trata de algo sobrenatural - embora manifestações de fé espiritual apareçam na produção -, mas sim dos fantasmas da aristocracia colonial e da escravidão.

Símbolos e Beleza

O filme é aberto por uma impressionante sequência simbólica e plasticamente deslumbrante. Em meio ao extenso canavial do engenho Wanderley, surge um barco a vela, no qual retorna Maria Bethânia (Maeve Jinkings), herdeira daquelas terras. A casa grande, moradia de seus ancestrais, importantes senhores de engenho, mostra-se um ambiente antiquado, totalmente parado no tempo, o que representa o apego da família à tradição aristocrática.

Neste cenário da evidente falência do engenho, surgem propostas de estrangeiros pela compra das terras, a fim de estabelecer um centro cultural comandado por negros, antes funcionários do engenho e descendentes dos antigos escravos.

Brasil é conflito:

De autoridade...




A relação da protagonista com Alessandra (Dandara de Morais) mostra muito bem essa construção, por meio de atitudes que têm como propósito sempre diminuir a garota negra, que mesmo tendo sido oferecida para ajudar na casa, é tratada de forma que deixe sempre clara sua posição nesta.

O roteiro constrói o embate entre a busca por reparação dos negros, conquistando espaços que evidenciam sua importância, e a tentativa dos brancos colonialistas de manter sua tradição de superioridade, com seu discurso de posse e até mesmo autoridade. 

As manifestações culturais e religiosas do povo negro, realizadas no novo centro cultural, também causam espanto na protagonista, nitidamente incomodada (e assustada) com as cerimônias realizadas em suas terras. Maria Bethânia expressa seu racismo de diversas formas, ela que encara a face da mulher pura, sexualiza Alessandra logo que a conhece, por exemplo.


De poder...

O embate de interesses vai além da relação dos senhores e dos escravos. A chegada de Branca (Magali Biff), madrinha de Bethânia, às terras dos Wanderley, traz com sua presença outro hábito da ganância colonial à trama, o interesse incessante em possuir terras. O oportunismo da personagem fica claro - embora sua construção seja um tanto caricata -, no modo como ela trata a protagonista, com desdém em relação a suas decisões, sob um disfarce de carinho. 

O tom caricato de Branca não é um distúrbio para trama, já que seu comportamento dissimulado exprime a dolorosa realidade da classe média brasileira, que não cobre os olhos para as mudanças, mas insiste em lamentar por elas. Bethânia, diferentemente de sua madrinha, expõe a outra face dos herdeiros da aristocracia, a que nega a mudança.
  
Além da inesquecível sequência da abertura, Açúcar tem diversas cenas repletas de simbolismos e primor estético, além de uma preocupação perceptível com a mixagem de som e uso de efeitos sonoros. Mas toda essa beleza e esse simbolismo muitas vezes parecem preencher cenas sem importância para a narrativa principal do filme. 

Açúcar traz um Brasil presente em nosso imaginário literário: o Brasil das caravelas, dos canaviais, dos escravos e dos senhores de engenho, mas em um cenário contemporâneo, em que a degradação da visão aristocrática insiste em tentar prevalecer, evocando e ressuscitando alguns dos mais assombrosos fantasmas de nosso passado, como o da falsa superioridade racial que teve seu extremo na escravidão.
Nota - 4 lustres (4 de 5)






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