O Iluminado: O ser humano não é uma ilha


Ao contrário do que costumam dizer sobre o filme, O Iluminado, de 1980, obra de Stanley Kubrick, não é a história do escritor que vai com a família para o Hotel Overlook no inverno. É a história de Danny, o menino “iluminado”, que acaba sobrevivendo à situação complicada que se forma com o isolamento junto a seu pai e sua mãe neste hotel. Ele é, de fato, o protagonista principal, digamos assim, tanto que, em grande parte, a história é mostrada pelo ponto de vista da criança. 

O fato de Danny ter um “dom” para pressentir coisas ruins e para ver e sentir coisas do passado, que foi na sequência, Doutor Sono, acaba sendo apenas um dos elementos do drama por trás do suspense desta obra de Kubrick. O Iluminado nos mostra, principalmente, o quão nocivo pode ser o isolamento social.

O ser humano não é uma ilha

É um filme sobre como o ser humano e o isolamento não combinam, sobre como um casamento disfuncional sofre ainda mais, escancarando os problemas que eram jogados para baixo do tapete, quando a família se depara com o isolamento, pois as pessoas acabam mostrando o pior de si em situações extremas.

Não apenas por ser considerado um clássico do cinema, pois o título de clássico nem sempre é sinônimo de bom, O Iluminado é importante por abordar como o ser humano precisa de companhia, e como acaba se rendendo e mostrando seu lado menos “humano” quando as companhias são péssimas. Quer você interprete os “fantasmas” do filme como alegoria, metáfora, ou se realmente se render ao lado sobrenatural da trama e os considerar reais, tudo o que acontece não tem desculpa, pois não importam os motivos, se você fizer algo horrível, foi você quem o fez, e não importa o quanto você atribua seus atos maléficos a qualquer entidade que seja, você foi errado. Ponto final. 

 E o machismo estrutural por trás disso tudo?

Talvez Jack tivesse realmente potencial. Talvez aquela família ainda tivesse salvação, mas o “naufrágio” deles se deu por atitudes deles mesmos. Wendy pode ser considerada fraca e aceitar muita coisa péssima e ela mesma “passar o pano” nos erros de Jack – mas vejamos um outro lado: 40 anos depois, graças ao machismo estrutural ainda reinante em nossa sociedade, e à forma como são tratadas mulheres vítimas de crimes hediondos todos os dias, não condeno Wendy, só gostaria que ela tivesse conseguido fugir de Jack antes de todo aquele horror.

Logo no início, Jack é avisado sobre os acontecimentos prévios do hotel. Histórias perturbadoras sobre assassinatos – o que acabou por se tornar um gatilho emocional trágico – foram contadas de antemão, e mesmo assim, a família decidiu se mudar para lá, descrentes em relação ao impacto que esses acontecimentos poderiam ter em suas vidas. Podemos analisar essa situação como um aviso, acima de tudo, didático, pois nos mostra o quanto certos traumas podem revelar o lado mais obscuro do ser humano.

 

Segundo a própria psicologia infantil, as crianças têm uma percepção muito mais desenvolvida sobre o comportamento humano. E esse é o ponto principal do filme. No decorrer do longa, vemos a evolução de Danny e seu caminho em direção à loucura juntamente com seus pais.

Além de ser uma crítica altamente interessante sobre os perigos do isolamento social, O Iluminado nos leva a enxergar vários prismas sobre questões delicadas e complexas da mente humana. Danny, uma criança criada num ambiente familiar conturbado, nos mostra o impacto que situações externas podem causar à saúde mental de uma criança. A intenção do filme, acima de tudo, parece não ser mostrar o “outro lado”, mas sim, nos prender junto à instabilidade emocional de Jack, Danny, e sucessivamente, Wendy. 

O Iluminado é um thriller psicológico viciante, ainda que lento, e que nos leva a refletir sobre aspectos muito importantes da nossa mente. A forma como se desenvolve desde o início, nos mostrando fragmentos e aspectos do comportamento de Jack segundo a perspectiva do pequeno Danny, nos leva ao delírio junto com os personagens, deixando uma incógnita em nossas mentes.

Apesar de não ser fiel ao livro, e de Stephen King não gostar do filme e até ter encomendado um remake* em forma de minissérie [que particularmente amei e recomendo demais], O Iluminado é um filme emblemático, que nos leva a conclusões interessantes e questionamentos idem. 

 


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Ps.: Essa crítica foi escrita antes da pandemia e eu já havia falado lá em cima sobre as
questões que envolvem o isolamento social, ou o que este traz à tona nas pessoas,
mas reforço aqui:


Agora, ainda mais, podemos ver o filme (também) como um retrato de como
pessoas já problemáticas, pai alcoólatra, pai/marido/abusivo etc. se comportam
com o isolamento social, infelizmente como estamos vivenciando fora das telas.  

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* (Sim, eu uso a palavra remake, que quer dizer refazer, recriar, em vez de refilmagem, pois um remake envolve muito mais do que simplesmente “filmar de novo”, ou pelo menos é o que se espera de algo do gênero, uma recriação que traga algo de novo ao original, em muitos casos, especialmente, abordando pontos importantes atuais que não eram considerados relevantes ou foram mudando com a passagem do tempo. Só um exemplo: Remake de Cemitério Maldito (Pet Sematary) e a forma como o pai fala com a filha sobre a morte.)

Tenho várias ressalvas quanto ao andamento do filme, uns WTF, como “a cena do labirinto”, mas, no geral, acho muito relevante e recomendo.

Não vou dar uma nota a O Iluminado, pois confesso que tenho visões conflitantes quanto a este filme a cada vez que o revejo, então prefiro encerrar com um questionamento: A culpa é do isolamento social ou das pessoas?

Trailer do filme do Kubrick:

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Trailer da Minissérie de O Iluminado

 



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