44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Miss Marx - Quem foi de fato Eleanor Marx, uma das precursoras a vincular as pautas do socialismo com o feminismo?

Já é sabido que qualquer obra que leva o sobrenome Marx em seu título por si só já causa um certo alvoroço, seja por aqueles que possuem pensamentos de modo alinhado com o grande sociólogo alemão, como também por aqueles que o refutam, mas calma, apesar da figura de Karl Marx (Philip Gröning) aparecer em cena, Miss Marx, como o título já dá a entender, não é sobre ele próprio, e sim sobre sua filha caçula, Eleanor “Tussy” Marx (Romola Garai). Antes de falarmos do filme em si, vale darmos uma pesquisada para conhecermos de fato quem foi Eleanor Marx, afinal, vale muito lembrar que ela está incluída no imenso número de mulheres que marcaram a história, mas foram negligenciadas com o tempo. A exemplo do pai, Eleanor foi ativista política, sua importância histórica se dá pelo fato de estar entre as primeiras mulheres a vincular as pautas do socialismo com o feminismo, participando ativamente das reivindicações das trabalhadoras pelos direitos das mulheres e pela abolição do trabalho infantil, e a partir daí se nota que a proposta do filme pode trazer uma narrativa cheia de possibilidades, seja pelo tema em si, por sua personagem principal e, claro, pela questão histórica tanto vivida pela protagonista na sua época quanto como sua luta pode ser retratada nos dias atuais.

O filme acompanha a jovem Eleanor Marx a partir do falecimento de seu pai, em Londres; na primeira cena, inclusive, vemos nossa protagonista discursando em seu funeral e já envolvida com questões políticas, com atividades do partido e bem próxima a demais socialistas que possuíam certa familiaridade com o seu pai. Ao longo do filme, notamos até mesmo um companheirismo e uma profunda amizade com Friedrich Engels (John Gordon Sinclair). Mesmo com algumas cenas do passado mostrando Eleanor ainda criança sendo educada pelo pai e com todos os seus familiares ainda vivos, é a partir de sua juventude que o filme retrata sua história.

Miss Marx busca explorar tanto o lado pessoal quanto o familiar da protagonista. Com sua atuação social e militância, a diretora  Susanna Nicchiarelli tenta deixar claro ainda nas primeiras cenas como as vidas pública e privada da protagonista caminham lado a lado e estão interligadas, porém o filme revela uma certa dificuldade em dar a mesma ênfase para ambas. Miss Marx exalta com muito mais destaque o âmbito particular de Eleanor, mostrando sua conturbada relação amorosa com Edward Aveling (Patrick Kennedy), escritor e teatrólogo que, além de seu marido, é também um dos integrantes do partido, a relação entre os dois se mostra trágica desde o fato de ele ofuscar o protagonismo de Eleanor em sua militância, além de sua compulsão em gastar dinheiro e as constantes traições; pior do que isso, é ver uma Eleonor agindo com certa passividade no que diz respeito ao seu relacionamento abusivo, o que não condiz com toda a sua luta em defesa dos direitos iguais entre gêneros e pelo do fim do trabalho infantil, o que dá para entender em se tratando de uma obra de ficção, ainda que seja um filme baseado em fatos, em que há grande influência da época na qual a jovem vivia e também dos princípios morais que ela enfrentava. Com tudo isso, a militância e a atuação política de Eleanor no longa se resumem apenas a pequenos momentos em fábricas onde ela dialoga com empresários e homens de negócios, sua participação em manifestações e conferências do partido, onde junto aos demais membros do partido (inclusive perante ao seu marido Edward) ela fala para multidões formadas por homens e mulheres sobre a necessidade de condições de trabalho e salários de forma igualitária, porém, como dito anteriormente, as lutas em que a protagonista estava envolvida recebem bem menos espaço ao longo do filme. 

No que diz respeito à parte técnica, algumas questões chamam bastante atenção, como a quebra da quarta parede em certos momentos, os trechos em que Eleonor expõe seus pensamentos para o público de forma falada, quando se encontra sozinha em sua casa, o que revela um mulher que, apesar de lutar pelos direitos das outras mulheres mundo afora, dentro de sua casa ela só possui a mesma liberdade quando está sozinha. 

O uso de figuras, imagens e vídeos reais é algo que também merece ser citado com destaque, e aqui vale lembrar que o filme se passa na Inglaterra do século XIX, e apesar da estética em sua fotografia remeter a sua época com um colorido contendo pouco contraste, as imagens e os vídeos reais da época são exibidos em um preto e branco bastante contrastante, que se destoam não apenas da estética do filme como também de outros elementos incluídos na obra, como por exemplo sua trilha sonora, que falando em destoar não deixa a desejar nem um pouco, a trilha sonora se destoa completamente do cenário e da ambientação lírica da época que a protagonista percorre, e notamos isso logo de início quando somos presenteados com cenas ao som de um punk-rock (movimento musical e cultural que surgiu no mundo décadas depois da época que se passa o filme, mas especificamente na década de 1970), porém, há algo na trilha sonora que enche os olhos daqueles que são apaixonados por história, que é um trecho de "A Internacional", canção considerada o hino do socialismo internacional revolucionário e que mais tarde (entre 1922 e 1944) ganhou notoriedade ao se tornar o hino da União Soviética, e a exibição da música no filme se torna muito mais simbólica por ter sido tocada no momento em que se retratam as cinzas de Friedrich Engels sendo jogadas em Beachy Head, Eastbourne. Ah, vale citar também que o filme é dividido em blocos de anos, situando em caixa alta qual ano estamos acompanhando, o que nos ajuda a associar os fatos nele mostrados com o que ocorria no mundo durante tal época, além, é claro, de nos prover uma clara noção cronológica dos fatos.

Quanto às atuações, pode-se dizer que Romola Garai consegue sustentar sua personagem de maneira bem positiva, ainda mais por retratar de forma satisfatória o olhar de cansaço de Eleanor com todas as  situações em que a vida havia lhe colocado, uma mulher forte que luta pelos direitos dos trabalhadores e das demais mulheres, mas que ao mesmo tempo precisa lidar com questões familiares e com um casamento falido que a faz ceder a tudo aquilo contra o que luta. A interpretação de Romola certamente é um dos pontos mais altos do filme, ela nos apresenta uma Eleanor repleta de nuances, que consegue ser forte ao lidar com questões socais, carismática e divertida com os que a rodeiam, e ao mesmo tempo, uma Eleanor que facilmente demonstra tristeza quando o filme entra em seu arco mais dramático.

Sendo de grande importância para a luta do movimento feminista, Eleanor Marx denunciava como o patriarcado de seu tempo reprimia as mulheres, ao mesmo tempo ressaltava como a luta dos trabalhadores operários por melhores condições de trabalho e a luta das mulheres por direitos iguais aos dos homens tinham muito mais semelhanças que qualquer outra coisa, e que para isso, a luta socialista e feminista as tornariam livres em algum momento, havendo assim igualdade de gênero. Como na maioria dos demais filmes de época, Miss Marx reverencia suas ambientações e seus figurinos muito bem construídos, além do modo como são expostas as relações entre seus personagens, e ainda precisamos lembrar que é um filme biográfico, e nisso se pode dizer que os elementos que se destoam na obra é uma tentativa de apresentar uma figura singular de lugar relevante na história para uma geração que ainda não a conhece ou que pouco a ouviu falar dela, e mais do que isso, Miss Marx é um filme sobre rebeldia, sobre fugir de padrões preestabelecidos, sendo assim, por que não ousar na sua estética? Afinal, rebeldia é fugir daquilo que lhe é cômodo, e se é para narrar uma história sobre rebeldia, não dá para fazer mais do mesmo, sem esta!

Nota: 4,2 momentos de uma "rebeldia mais rebelde" ao som de punk-rock (4,2 de 5)

Filme visto durante a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, estando disponível no streamin Mostra Play entre 22/10 e 04/11.



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