A Verdadeira História de Ned Kelly: "Nada do que você está prestes a ver é verdade"...

 

Vou direto aos pontos, sem mais delongas: Um dos elementos de que mais gostei em A verdadeira história de Ned Kelly está intrinsecamente ligado ao título do longa, uma espécie de "brincadeira" (ou crítica, pois também podemos enxergá-la na obra) com a própria história, que é relatada do ponto de vista de Ned. Sem me aprofundar em spoilers, posso dizer que ele mesmo começa, em uma narração em off, a contar sua história, e algumas citações que incluirei a seguir, revelam algo interessante, que deveria ser óbvio, mas para alguns (ou muitos, talvez) não é: seja a história do filme ficcionalizada, romantizada, com matizes bem diferentes do que realmente aconteceu, seja do ponto de vista da vítima ou do assassino, por exemplo, uma obra artística, sim, incluindo documentários (como bem lembrado pelo professor em Cara Gente Branca em uma de suas aulas), que nunca estão livres de "propaganda", no sentido de que sempre vão propagar os pontos de vista, as ideias, enfim, são recortes de histórias, nunca isentos, por mais que se diga o contrário, da imparcialidade. (Eu poderia me aprofundar mais sobre isso, mas não é o foco aqui, entretanto, em uma das minhas primeiras aulas de jornalismo, com belos exemplos, o professor provou facilmente que imparcialidade e objetividade, também intrinsecamente, não existem). Porém, de modo algum isso é um desmérito para o filme - muito pelo contrário. 

 O filme é brutal, violento e criativo, e nos mostra em muitas instâncias, o quanto somos frutos de nossas criações familiares, como não estamos livres de influências perniciosas, e como, especialmente com as crianças, é necessário tomar cada vez mais cuidado para não colocarmos sobre elas fardos de adultos, evitar traumatizá-las, para que não se transformem em adultos disfuncionais. Sim, temos como mudar, mesmo com tais influências, mas nunca é um processo fácil... ao mesmo tempo em que precisamos nos lembrar sim de coisas ruins para dar valor às boas. 

 

Apenas um exemplo de um uso perfeito no contexto do close parcial e ocupando quase 2 da regra dos 3 terços, com o pequeno Ned (parcialmente) focado em primeiro plano e o desfoque ao fundo 

Diferentemente de alguns críticos, não vi o diretor usando as influências vis sobre a criança, que foi inclusive vendida pela mãe a Harry Power (Russel Crowe), como apologéticas. Como disse no início, esse trabalho com a liberdade artística dizendo que nada daquilo pode ser verdade promove ao diretor e aos atores/personagens seguirem rumos considerados bem "errados", mas nada lhes tira a humanidade, mesmo que vários (ou muitos) deles sejam ruins. Pessoas de autoridade abusando de seus poderes é algo que vi como uma crítica muito forte, além do abuso contra mulheres e, é claro, crianças - mas não entrarei em mais detalhes não apenas por motivos de não querer soltar spoilers demais (como também, infelizmente, vi em algumas críticas que comentam pontos decisivos do filme, o que vejo como algo que estraga a experiência, que, pelo menos a meu ver, foi prazerosa).

 

Em um Western (australiano) atípico em comparação com grandes clássicos a que muitos de nós talvez estejamos acostumados, há momentos épicos e tanto a fotografia, como o uso da câmera, as paisagens, tudo parece estar ali não por acaso, mas sim por escolha. Cenografia, direção de atores, atuações (e não pensem que quando o personagem de Russel Crowe sai de cena, os outros atores ficam apagados, em momento algum isso acontece) e o bom uso da trilha sonora e score, somados a uma estética por vezes bem desolada, momentos em que aquela ausência de som em meio a atos violentos e sanguinolentos são mais do que bem utilizados, apesar de terem se tornado mais comuns recentemente, tudo isso vem a agregar ao filme que merece muitos elogios. 

A "pequenez" do ser humano diante do mundo e da natureza

A câmera viajando pelo cenário, aproximando-se de uma casa "no meio do nada", como se ela mesma fosse uma personagem, as tomadas aéreas, mostrando ao mesmo tempo uma triste beleza invernal, uma mescla de planos gerais, planos médios, primeiro plano, um deleite para aqueles que dão valor ao chamado cinema de arte, que busca fazer algo mais autoral e/ou menos nos moldes formulaicos com os quais estamos muito acostumados (novamente, não que isso seja ruim, pois o que importa é como se conduz e lida até mesmo com clichês e outros elementos comuns e formulaicos, e não estes elementos em si). 

Assim como a narração de Ned, sua história, que ele mesmo diz ser mentira, e tudo que se desenrola, nos prendem do início ao fim, a câmera parece estar ali como uma espécie de espiã, registrando aqueles momentos com uma maestria impressionante. O longa ainda conta com diversos planos de função dramática, e, assim como a câmera, os próprios ambientes, muitos violentos (geralmente pelas pessoas que neles se encontram), outros inóspitos e desolados, temos neste filme os ambientes também como personagens na trama, e às vezes os personagens parecem bem diminuídos com essas tomadas, em meio a toda aquela imensidão, o que nos leva a refletir sobre a pequenez do ser humano diante da vida e da natureza em si. 

Com esse uso de câmeras, narrativa e abordagem da "verdadeira" história de Ned Kelly, sendo bem subjetiva, e, apesar de partilhar de alguns elementos típicos de Quentin Tarantino, este filme brilha como uma estrela própria, e não em meio a uma constelação. É dramático, violento, brutal, é fictício e, ao mesmo tempo, muito real. E os personagens têm camadas, não é aquilo de mocinho contra bandido, como todo ser humano, eles contêm variações de tons, e até mesmo os maus cometem bons atos, e vice-versa.

Atrevo-me a dizer que George MacKay (Ned Kelly) atuou à altura de Silvero Pereira, em Bacurau. Os filmes são bem diferentes, mas os elementos comuns que compartilham entre si, e também com outros de Tarantino, repito, não são meras sombras. É um filme único, instigante, artístico, sim, mas em momento algum entediante. Porém, lembre-se do que diz o próprio Ned Kelly e Harry Power...

"Sei o que é ser criado entre mentiras e segredos" - Ned Kelly

"Descobri que quaisquer segredos nos prendem mais que qualquer corrente e apodrecem depois que são criados" - Ned Kelly

"Quando o homem se despede desse mundo, só resta sua história." - Harry Power

"Um homem nunca pode fugir de seu destino, nem dos crimes de seu passado" - Ned Kelly

Palavras da mãe de Ned: "Não há nada nessa terra para uma mulher, apenas solidão."

 

"Nada assusta mais os homens que a loucura", diz um dos homens da gangue de Ned.


 Finalizando com, além da máxima recomendação, a seguinte citação:

"Todo homem deve ser autor de sua própria história" - Ned


Nota: 4 vezes e meia em que luzes piscam e o silêncio toma o lugar dos gritos em cenas de supremo medo e terror.  (4,5 de 5)

Trailer:

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