Babenco: Alguém tem que ouvir o Coração e Dizer: Parou - Um filme sobre o Amor a Vida, e Amor ao Cinema

Existem filmes que homenageiam artistas, outros que são verdadeiras cinebiografias de pessoas importantes na história do cinema, outros então que adentram a história da sétima arte e mostram o quão minuciosa e rica é a história por trás da história que está sendo mostrada nas telas. Em um narrativa que chega a ser deslumbrante, Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, consegue fazer tudo isso de uma forma na qual somos convidados a entrar na história e conhecer cada detalhe sobre a vida do protagonista, suas inspirações e sua relação de amor com o cinema.

Logo de cara a gente até pensa que Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou é "uma justa homenagem a quem tanto fez pelo cinema", e de fato é, isso por si só já faz com que o filme seja interessante, porém se engana quem pensa que é só isso, primeiro que o filme ganha uma atmosfera profundamente intimista por ser dirigido pela viúva de Babenco, a atriz Barbara Paz, que faz sua estreia como diretora, e falaremos sobre isso um pouco mais para a frente, por ora, mergulhemos no belíssimo repertório de cenas com que o filme nos presenteia.

No geral, a obra explora paralelos entre diversos momentos marcantes da carreira do diretor argentino naturalizado brasileiro e as doenças enfrentadas por ele em seus últimos anos de vida. Aqui, a diretora Bárbara Paz faz questão de mostrar as angústias e os medos de Babenco, além de algumas de suas memórias e reflexões em que ele se desnuda em situações e confissões mais íntimas e dolorosas. Em outros momentos em que somente o casal está em cena, vemos Bárbara Paz com uma câmera apontada para seu esposo aprendendo a mexer no equipamento e tentando ajeitar o foco da lente, enquanto Babenco "direciona" para que ela consiga filmar em determinados planos, o que mostra a diretora na busca por um estilo próprio de se fazer cinema, um processo que ela realiza de forma consciente e em cujo resultado, que vemos no filme, fica evidente que pelo menos aqui, a história de Babenco é o que deve se sobrepor ao material e ao estudo que está sendo feito. O que se manifesta de forma mais viva e evidente quando tomamos conhecimento do que disse Babenco a Bárbara Paz ao perceber que não lhe restava muito tempo de vida: "Eu já vivi minha morte, agora só falta fazer um filme sobre ela". Bárbara Paz por sua vez não hesitou e aceitou a missão de realizar o ultimo desejo do companheiro, o de ser protagonista de sua própria morte. A intimidade da rotina do casal não é algo  que chegue a ser do interesse no filme, até porque isso não diz quase nada sobre quem foi Babenco, mais proveitoso do que isso é poder ouvi-lo falar sobre suas obras, isso sim é um deleite.

Para além dos momentos do filme em que só o casal aparece em cena, somos presentados com um material até então inédito que mostra os bastidores de gravação de vários filmes de Babenco, incluindo O Beijo da Mulher Aranha (1985), Carandiru (2003) e o seu último filme Meu Amigo Hindu (2015), e aqui a gente percebe o porque de Babenco ter se tornado um dos maiores nomes não só do cinema brasileiro como também do cinema mundial, pelas complexidade de seus filmes, e claro, por ter colocado seu talento em diferentes obras, e em épocas distintas. O ano ainda era 1990 quando Babenco descobriu que estava com câncer, em que segundo os médicos restavam-lhe apenas poucos meses a mais de vida, esses "poucos meses" duraram cerca de 26 anos, quando em 2016, aos 70 anos de vida Babenco nos deixou, porém, aqui sua ausência é sentida em cada segundo.

A exemplo de todos os filmes da carreira de Babenco, o documentário que marca a estreia de Barbara Paz como diretora também é um trabalho bem particular, e não poderia ser diferente, talvez a única dessemelhança seja que aqui o cineasta é literalmente o protagonista da história que, consciente de seu estado de saúde, cria uma versão de si mesmo para deixar para a posteridade, ele não fala isso, mas é como se soubesse que seria sua despedida, o que fica mais nítido em uma das cenas de encerramento do documentário, quando Bárbara Paz dança nua em Meu Amigo Hindu, uma clara referência a Cantando na chuva, talvez uma tentativa de Babenco de se reconciliar com certos mitos do cinema norte-americano. Apesar de estar fazendo sua estreia como diretora, Bárbara Paz corresponde à expectativa e consegue fazer um filme que condiz com a grandeza do protagonista homenageado, o preto e branco, além de mesclar imagens de trabalho com acervo pessoal, contribui para unificar as várias nuances do que é mostrado no documentário, além de torná-lo ainda mais intimista, e a não linearidade do roteiro mostra a complexidade de tudo o que está sendo mostrado.

Hector Babenco foi sem dúvida um cineasta que viveu e morreu realizando o que fazia sua vida ter algum sentido, que era fazer cinema. O documentário revela o quanto seu amor pelo cinema o manteve vivo por tantos anos, mesmo diagnosticado com câncer. Talvez Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou seja propositalmente em formato documental para revelar que o documentário se trata muito mais do que uma cinebiografia, é uma homenagem e uma verdadeira declaração de amor ao protagonista e uma declaração de amor à sétima arte. De todos os méritos do filme, o principal é como ele consegue nos levar pra dentro de sua história, ao ponto de não ser nenhum exagero afirmar que, além de ser o primeiro filme da Bárbara Paz, esse é também a última obra de Babenco, é sem dúvida uma imersão a vida e obra do cineasta. Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou não é um filme que constrói um mito e tampouco humaniza um herói, o filme apenas senta do nosso lado e pergunta "Como foi a sua vida?"

Escolhido como o filme brasileiro para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, dadas sua qualidade e intensidade, não seria um exagero dizer que tem chances, resta-nos torcer para que esteja entre os indicados e quem sabe, Babenco mesmo depois de partir, trazer esse Oscar pra gente.

Nota: 4,8 de 5,0 (Quatro diálogos de bastidores de antigos filmes de Babenco e 8 vezes em que ele dirige cenas, seja de filmes dele ou desse próprio documentário)



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