#streaming - Rogai por Nós - Um filme de terror católico edificante

à direita, imagem que parece ser Nossa Senhora, só que com mãos cadavéricas e um terço com contas vermelhas e a cruz invertida na mão, cuja parte horizontal também é vermelha; à esquerda, o jornalista que vai à cidade investigar os supostos milagres, com uma expressão de pavor/medo no rosto.


Confesso que, quando vi certo alarde lá fora e até aqui no Brasil (antes mesmo de o filme ser oficialmente lançado), não tive como não pensar, para não usar o termo hipocrisia, dois pesos e duas medidas. Midsommar incomodou não somente a mim como a todo o povo sueco, o que foi motivo de risos para muitos brasileiros, já que, segundo eles, "era apenas um filme de ficção". 

Mas até que ponto um filme de ficção tem o direito de deturpar uma religião que não seja a sua, e/ou um povo (o que, e também já citei aqui no site, aconteceu com o filme Turistas, pelo qual o diretor chegou e pedir perdão ao povo brasileiro e ao Presidente da República na época)? Pelo menos ele teve a decência de fazer isso, o que não se deu com o diretor do ultrajante Midsommar, que, na minha opinião, além de ultrajante e deturpador, é bem chato.

Embora a imagem da "suposta" Nossa Senhora [a que abre esse texto, à direita, descrita #paracegover #paracegoler no texto alternativo] possa, sim, parecer ultrajante a princípio, logo no início do filme (e durante ele) a nós é didaticamente explicado o porquê disso, sem que essa didática torne o filme chato de modo algum. 

Imagem da verdadeira Virgem Maria na parte superior, e da Criatura, que se chama Mary, abaixo, refletida nujm lago.

O filme é, sim, edificante. Ele fala de fé, e não de uma fé cega. Sim, ele menciona e expõe membros corruptos da Igreja Católica que só pensam em dinheiro e poder, sem ver o mal que estão fazendo. A obra não ofende nem mesmo o paganismo. Ele fala de redenção. De segundas chances. De como muitos santos foram pecadores antes de serem santificados. Eu não vou entrar em spoilers, mas o jornalista Gerry Fenn, muito bem interpretado por Jeffrey Dean Morgan, meio que, para não dizer muito, falido e desacreditado depois de tanto fabricar histórias (oi, assunto mais que atual, #fakenews, mas que vem sendo feito faz tempo), é chamado para averiguar uma suposta mutilação de gado em uma cidadezinha basicamente católica.

Um esclarecimento importante: embora tanto na sinopse quanto em críticas de espectadores que li, seja dito que a Virgem Maria apareceu supostamente para Alice, não é esse o caso. A aparição diz APENAS que seu nome é Mary, o resto é dedução do povo e ocultamento por membros superiores da instituição igreja católica. E, com a cena de abertura, dá para saber muito bem que não se trata da Virgem Maria, embora, repetidas vezes, como já falei, a "entidade" não se diz ser a Virgem Maria, e, se sua aparição inicial tem a aparência de Nossa Senhora, isso é devido a algo horrendo que um padre faz logo no início do filme, em cujos detalhes também não vou entrar. 

A "criatura" em pose de zombaria com as mãos unidas em "prece", mas na imagem não conseguimos ver seu "rosto"

Gostei das referências ao terror japonês, com a criatura, quando finalmente se revela como é e quem realmente é, nos remete a Kayako, com seus modos de andar e ruídos, creio que uma homenagem, não uma cópia, ainda mais quando temos também um [alerta de spoiler] momento em que a criatura diz que ela viverá através de seus filhos, o que nos remete aos yurei, como Sadako e Kayako, em que a maldição nunca tem fim, também como no terror japonês, dos quais já falei bastante aqui no site [fim do spoiler].

Se você achou Gerry Fenn um babaca, bem, a princípio ele é mesmo. Não é lá nada edificante ganhar dinheiro com fake news, não? E ele é ateu. Mas a trama não é bobinha, e não só ele como muitos outros personagens evoluem durante o filme. 

Quem diz que é um grande ataque à fé católica encaixa-se em dois grupos: o de dois pesos e duas medidas (já que mexer com a fé dos outros parece não ser problema para eles), e aqueles que parecem que viram um filme totalmente diferente do que eu vi (e vários outros cinéfilos/críticos sérios, que julgaram o filme pelo que ele realmente é). Ele não "ataca" a religião, ele mostra algo que sabemos que é real: membros da Igreja que usam dos subterfúgios que podem (mas não deveriam) para se darem bem pessoalmente dentro da Instituição sem, na verdade, serem homens "santos", passando bem longe disso. Sim, temos padres e religiosos decentes e de bom coração também, mas, muitas vezes, só o bom coração não é sinônimo de fazer o bem (não vou revelar o o plot twist - spoiler demais). Pessoas criticando o filme sem o ver então... nem se fala. 

Alice prestes a convencer os fiéis (Internet incluída) a cederem sua alma para o Mal (sem que ela saiba disso)


Eu vi. E quero rever. Tem clichês? Alguns, talvez vários. No entanto, clichê bem usado não é problema algum. Muito do que fazemos no dia a dia é clichê demais até, rs. Mas tem uma trama diferente, que sai do lugar comum e faz aqueles que realmente querem, pensar. 

A cinematografia é ótima, há momentos em que, para variar, Jeffrey se destaca, temos momentos de alívio da tensão, um quase romance, mas nada de romance forçado, ou seja, foge sim ao lugar comum. Nada como A Freira, por exemplo. Muitíssimo melhor. Certo, eu sei que A Freira é bem ruinzinho e a comparação não foi bem escolhida, rs. 

Como disse um espectador: "o roteiro claramente segue premissas do cristianismo à risca." Inclusive mostrando footages reais sobre aparições consideradas verdadeiras até hoje. 

Seriam alguns pontos realmente clichês ou remetentes ao bom terror clássico? Nada como O Exorcista, mesmo porque os propósitos são outros e a classificação para "Rogai por nós" é PG-13, sem muito gore, com alguns jump scares no que considerei momento ideais. Além de tudo é terror investigativo e, em alguns momentos, me lembrou a ótima série O Exorcista da Fox, que temos disponível no Amazon Prime. Não como cópia, pela abordagem de quem luta pela verdade e por aqueles que deveriam proteger seus fiéis e não mentirem e ocultarem fatos, verdade, em prol de si. 

Vários personagens, incluisive o jornalista, com ares de choque/surpresa ao testemunharem um suposto milagre
 

O prólogo (que já explica muito do que vem pela frente) se passa em 1845, em Banfield, Massachusetts, depois voltando para a cidadezinha em dias atuais. Apesar de basicamente católica, os habitantes da cidade acreditam em bonecos da colheita (reminiscências do paganismo) - tidas como superstições. Ironicamente, o padre (bom) católico Hagan cita Lutero:"Onde Deus constrói uma igreja, o Diabo constrói uma bem ao lado."

Estátuas sangram em momentos cruciais. Mais do que isso não posso falar por motivos de ... spoiler, claro.

Assistam, julguem por si, curtam. Fazia um tempinho em que eu não via um filme de terror/suspense assim tão bom. 

Ps.: O único problema que vi foi na sinopse, em que diz que é a Virgem Maria, quando nem de longe é esse o caso, novamente digo, é explicado nas primeiras cenas do filme.

5 de 5 "bonecas da colheita" atadas com correntes e com uma data impossível (quem viu vai entender;])

Duração: 99 minutos, aproximadamente
Classificação Indicativa: 14 anos
Plataformas digitais de Aluguel e Compra:
Apple TV (iTunes), Google Play e Microsoft Films &TV (Xbox)
Plataformas digitais exclusivamente para aluguel:
Looke, NOW, SKY e Vivo Play

Trailer:



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