Crítica do filme Lucky, um filme de John Carroll Lynch (com Harry Dean Stanton)



Agridoce, como consta na própria sinopse lá no Rotten Tomatoes, “Lucky” é um filme que me deixou mais com uma sensação boa do que triste, por incrível que pareça. Sendo um filme que fala sobre velhice e solidão, imaginei algo bem mais tétrico, mas não, o filme tem uma leveza que me impressionou bastante. Sendo um recorte na vida do protagonista, cujo apelido é Lucky, e que tem no elenco Harry Dean Stanton, do divino “Paris, Texas”, em "À espera de um milagre", como o personagem que dá nome ao filme, e David Lynch (que não tem parentesco com o diretor), este é um filme encantador em sua singularidade e em seu retrato da humanidade. 

A fotografia do deserto, as rugas e os vincos das peles dos personagens, a perfeita escolha da paleta de cores para o visual do filme tornam-no uma obra bela em termos técnicos tanto quanto em termos de história - um scrapbook do dia a dia de personagens em uma cidadezinha no meio do nada, em que praticamente todo mundo se conhece, a monotonia da vida e chamados a reflexões estão lá, mas em momento algum deixam o filme chato ou entediante, e, na verdade, embora o final tenha sido bem satisfatório, ficou aquele gostinho de quero mais, e digo isso porque aqueles personagens peculiares com suas vidinhas monótonas me encantaram, e isso é incrível. 

As conversas entre Howard, o personagem de David Lynch, e Lucky são algumas das melhores do filme, com todo seu teor filosófico e com toda sua carga emocional. Como Lucky é ateu, ele acaba pensando que, se vamos voltar ao nada (ele não acredita nem em alma), então é melhor passar a vida sorrindo. 

Melhor momento do filme: Harry cantando en español na fiesta, acompanhado pelos mariachis. Um tremendo de um evento em uma vida e em uma cidade em que tudo é tão pacato e rotineiro. 

Tanto o diretor quanto o roteirista afirmaram terem se inspirado na vida do próprio Harry Dean Stanton para fazer este que acabou sendo uma espécie belíssima de canto do cisne e homenagem ao ator nonagenário, que faleceu duas semanas antes de o filme ter sido lançado comercialmente, em 15 de setembro de 2017, em que o personagem principal, Lucky, começa a pensar e repensar sua vida e a morte depois de um desmaio aparentemente do nada. Excêntrico, sortudo - afinal, sobreviveu à Segunda Guerra, fumou a vida toda e não tem câncer de pulmão, tem a saúde praticamente perfeita, para falar a verdade… e, sim, carismático em sua excentricidade e com suas manhas, é um personagem tão singelo e tocante quanto este filme, aparentemente simples, porém carregado de significados. Um filme sobre velhice, solidão e morte que acaba tendo uma leveza em vez de um drama que poderia ficar pesado e ser desnecessário. Belo, singelo, simples e complexo ao mesmo tempo, super recomendo. 



Um adeus delicado e belo de Harry Dean Stanton, cheio de pequenos sorrisos e que também invocou em mim vários sorrisinhos.

Nota: 5 de 5 cágados perdidos (ou não) no deserto


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