Minhas primeiras impressões (e divagações) sobre Westworld, a série da HBO



Fazia um tempinho que o piloto de uma série não me cativava desse jeito. Mergulhei no mundo de Westworld sabendo pouco sobre ele. Houve primeiro um filme, pois Michael Crichton não achava, a princípio, que a temática ficaria boa em um livro. E depois, veio o livro, escrito por ele mesmo, que é o roteiro do filme. E recentemente, a HBO fez a série, cuja segunda temporada virá em breve. 

Eu amo histórias sobre mundos distópicos e volta e meia me envolvo com leituras e filmes e séries que abordam esses temas que tanto amo. Robôs, androides e histórias diversas que brincam com um tema bem recorrente em obras como Jurassic Park: A natureza dá um jeito. 

Westworld brinca (não em um sentido de diversão, e sim mais como um tapa na cara das pessoas) com a ideia do controle, e da ambição. Calma lá, diriam vocês, afinal, do que se trata essa história? Bem, vou falar um pouco sobre isso. 

No futuro, as pessoas pagam para serem personagens ativos em uma espécie de RPG live-action faroeste em que os NPCs (chamados de hosts na série) são vidas artificiais e programadas. 

Isso me lembrou várias coisas, e ao mesmo tempo manteve sua originalidade até o fim do piloto, a ponto de me deixar tão encantada e precisando falar sobre isso que vim aqui escrever. Desde Eu, Robô, passando por Blade Runner/Androides sonham com ovelhas elétricas, o próprio supracitado Jurassic Park, temos um pouco de cada um disso e suas peculiaridades também. Fiquei com vontade de rever também Dollhouse (cujo piloto está longe de ser excepcional, e eu vim a descobrir depois que a FOX exigiu que Joss Whedon o “diluísse” em 6 episódios pois, segundo rumores, eles achavam que aquilo seria demais para o público). Se em Dollhouse, as pessoas têm suas memórias apagadas e “incorporam”, com memórias implantadas, personagens, em Westworld, as “pessoas criadas” para a diversão (mórbida) de ricos recebem memórias dos personagens que devem assumir e costumam seguir um roteiro com poucos desvios, segundo o desenvolvimento do roleplay. Até que supostamente uma atualização cria toda uma sorte de “defeitos”, “glitches”, e, enquanto temos frases que nos remetem de imediato a Asimov, como o questionamento de ferir um ser humano, ou algo vivo, temos toda uma série de referências e/ou influências a/de outras obras lindas da ficção científica. 

Mas Westworld não fica brincando com as referências. Não de forma simplista e somente para vender, não sendo vazio enquanto tenta parecer “cool” (Sim, “Jogador número 1”, o livro, estou falando de você!). Não, Westworld usa elementos da narrativa típicos da ficção científica, claro, com a belíssima fotografia e os amplos planos de câmera que nos dão a impressão de que o mundo do “parque” é o real, ao contrário do mundo “real” que praticamente não vemos, e o que vemos dele fica confinado em salas escuras. 

Westworld é chocante, gore, brutal. Era de se esperar. Mas faz poesia com as atrocidades. Cita Shakespeare, entre outros, em uma forma de metalinguagem em que a história conversa com autores que sempre têm que infundir algo de seu nos personagens. 

Como monstros saídos das páginas como vemos em livros de terror de Stephen King, por exemplo, o verdadeiro terror logo de cara em Westworld é a motivação dos players: matar e/ou estuprar é o que eles mais fazem e se regozijam com isso. Você pode desempenhar qualquer papel, e escolhe ser um vilão, ou meramente uma pessoa que mata por matar, porque ela pode e está pagando para fazer isso. 

Muitos diriam não ser muito diferente de matar pessoas em um videogame. Mas, em Westworld, temos a impressão de que é tudo muito real e, por isso mesmo, é muito assustador ver seres “humanos” fazendo aquelas atrocidades, porque eles podem e ponto final. 


"Hell is empty and all the devils are here."

A escolha da música “Paint it black” com variações em cima do tema em uma sequência de massacre  antes da conclusão brilhante do primeiro episódio me deixou supremamente encantada também. Que sequência incrível aquela do heist no salloon, ainda mais incrível ao som dessa música, como vocês mesmos podem conferir abaixo:  



As atualizações dos seres criados recebeu, em inglês, um nome no mínimo interessante e curioso, “reveries”, detalhes que deveriam deixar os hosts mais realistas, é uma palavra que pode ser traduzida por imaginação, pensamento, condição de estar perdido em pensamentos, condição de estar sonhando acordado. 

A cena final, em que Evan Rachel Wood está simplesmente perfeita, não é surpreendente, pelo menos não foi para mim, já que pude ler as entrelinhas nos diálogos de um roteiro que, apesar de muito bem feito, parecia ter “embutido” frases que nos levariam facilmente à conclusão que vemos no final deste primeiro (e fantástico) episódio. 

O hype da série bateu com a realidade para mim logo de cara com este piloto. Espero que continue mantendo esse nível, tanto em termos visuais e sonoros quanto em termos de narrativa. 

Ah, sim, e como eu tenho uma quedinha particular por robôs e androides, espero que todos eles se voltem contra as pessoas ;) As reveries, bem, pode-se dizer que elas agiram como centelhas ou sopros de verdadeira vida... ou seriam as memórias, outro questionamento constante da ficção científica, que levaram os hosts a questionarem suas realidades? É para refletir. 

E você, já se questionou sobre a natureza da sua realidade?



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