Gattaca: a experiência genética - Sobre a bioética e avanços tecnológicos na área da genética


Antes de qualquer coisa, este é um post que vai conter alguns spoilers sobre o filme, e, que para um maior aproveitamento dele, o ideal seria assistir ao filme em questão. Então, se você quer uma opinião se deve assistir ou não a esse filme, minha resposta é simples: ASSISTA. É um filme maravilhoso que simplesmente me encantou com sua narrativa, fotografia e tema.

Gattaca é aquele tipo de filme amargo que te dá uma sensação boa no final. Talvez porque você sinta uma empatia enorme pelo personagem principal, que nasce do amor e não de experiência genética, e torce para que ele consiga o que quer por causa do esforço dele. Ou talvez por causa da complexidade dos outros personagens que cercam o principal.
Temos o destaque para o esforço e como é possível conseguir as coisas com ele. Como mesmo sendo projetado para ser perfeito, não se obtém uma vida perfeita. Como, mesmo em uma sociedade evoluída, se cria novos preconceitos.
A frase do personagem principal, ao disputar com o irmão perfeito no nado, de que ele venceu porque nunca pensava na volta, é incrível. Com a mensagem de que ele sempre seguiria em frente, não importando o final.
Mas, de maior destaque ainda, a experiência genética. Até que ponto seriam aceitáveis as experiências genéticas? Elas são aceitáveis? Seria todo o tipo de eugenia ruim?
É com está deixa que vou me aprofundar mais um pouco.
Podemos dividir a eugenia em dois tipos. A eugenia positiva, que busca o melhoramento de característica individual, como cor de olhos e cabelos, e a eugenia negativa, que visa eliminar os defeitos que causam sofrimento aos humanos, como predisponibilidade para diabetes, obesidade, pressão alta (GUIMARÃES, M. A. et al, 2010).
Dando exemplos do filme, o pianista de seis dedos é uma eugenia positiva, cuja característica individual foi modificada para que ele conseguisse tocar piano de forma excepcional. Se o personagem principal fosse uma experiência genética, seria retirado seu problema cardíaco e este é um exemplo de eugenia negativa.
Particularmente, sou a favor da eugenia negativa. Mas até chegar a ela, vamos destacar alguns pontos.
Antes de tudo, na área da saúde, devemos sempre ter em destaque a Bioética, que tem como definição: “objetivo de indicar os limites e as finalidades da intervenção do homem sobre a vida, identificar os valores de referência racionalmente proponíveis, denunciar os riscos das possíveis aplicações”.   É bioético, por exemplo, não fazer experiências de medicamentos em um ser humano sem seu consentimento. Ou as experiências em prisioneiros dos nazistas, da qual hoje se iluminou  alguns aspectos, de gases e venenos, são totalmente não éticas.
Destaco a bioética porque na eugenia positiva ela não existe, afinal, neste tipo de eugenia não se busca o bem autêntico e integral do ser humano e sim a realização de um capricho dos pais que estão programando a criança.
Além disso, praticar este tipo de eugenia acaba por limitar a vida do futuro ser humano que foi criado. Voltando ao pianista de seis dedos. Que outra profissão ele teria? Que liberdade ele teria de escolher outras profissões ou outra vida?
Também poderia levar à triste perda de algumas características únicas que vemos em algumas pessoas, que acabam lhes conferindo personalidade, mas que por não seguirem um padrão de beleza aceitável, seriam simplesmente erradicadas. Ou, mais triste ainda, a erradicação de características de raças.
Agora, sobre a eugenia negativa, poderemos nos livrar de predisposições para pressão alta, diabetes, problemas cardíacos e até de células cancerígenas. Poderíamos dar uma vida melhor para pessoas que provavelmente desenvolverão estas doenças por causa dos genes.
Contudo, mesmo com uma genética perfeita, as pessoas não estariam livres de desenvolverem algumas doenças, porque a saúde também está relacionada ao estilo de vida de cada individuo. No próprio Gattaca percebemos que Eugene, um espécime em teoria, perfeito, acaba desenvolvendo depressão.

Não podemos esquecer que, com a modificação genética também interferiríamos na evolução humana. Criaríamos, talvez, seres com saúdes frágeis para alguns males, ou aceleraríamos o desenvolvimento de algumas doenças, enquanto erradicaríamos totalmente outras. Talvez com isso, conseguíssemos diminuir um pouco os casos de câncer. 
Uma matéria de 2017 (que você encontra aqui) fala um pouco da modificação genética. Que nos EUA já realizaram tal experimento e com isso conseguiram ajudar uma geração a não ter genes defeituosos.
O grande problema é limitarmos a bioética. Até que ponto seria bioético fazer tais modificações? A bioética pode mudar com o tempo e algo terrível pode acontecer e poderíamos vir a ter eugenias positivas como um futuro próximo.

Como posso ter tanta certeza? Na Islândia se permite o aborto até a 16ª semana se o feto tiver qualquer tipo de deformidade, e entre essas deformidades está a Síndrome de Down. Por isso, a Islândia conseguirá erradicar a doença sem ao menos conseguir uma cura.
A modificação genética, no caso, seria algo bem mais humano e poderia ser considerada uma cura para a Síndrome.
O caso da Islândia pode ser aplicado a qualquer tipo de característica, pois crianças com Down, neste país, são consideradas como uma vida que pode ter grandes problemas e por isso pode ser terminada antes de começar. Que tipo de outras vidas podem ser consideradas um problema para os pais e por isso serem “terminadas”?
Habermas é um filósofo que discorre sobre estas práticas em seu livro “O futuro da natureza humana: a caminho de uma eugenia liberal?”. Nele há dúvidas de como seria esta geração que foi montada pelos pais. Se eles aceitariam isso e o que eles seriam na sociedade; por serem seres fabricados, seriam mais que humanos e quais direitos teriam?
“Hoje, precisamos nos perguntar se as gerações futuras vão se conformar com o fato de não mais se conceberem como autores únicos de suas vidas – e também de não serem mais responsabilizadas como tal. Será que essas gerações se contentarão com uma relação interpessoal, que não se adapta mais às condições igualitárias da moral e do direito?” (HABERMAS, 2010, p.93).
Mesmo com todos estes “poréns”, “e se”, “contudo”, acho que a utilização de modificação genética seria um importante passo para a cura de muitas doenças e para alguns procedimentos mais humanos.
Afinal, temos tecnologias criadas inicialmente para uso em guerra e que oferecem uma vida melhor hoje em dia, vide a Internet, então por que não darmos uma chance para as experiências genéticas?
Sinta-se livre para comentar e discutir sadiamente sobre o assunto.
“Muitas vezes erra não apenas quem faz, mas quem que deixa de fazer alguma coisa.”
                                                                                                                        Marco Aurélio
Artigo por: Dhuane Monteiro
Para saber mais:
Trailer de Gattaca: 

Comentários

  1. Oi, você sabe que concordo contigo quanto ao conteúdo desse post. O Utilitarismo também é válido, nesse caso, não? "Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar (Princípio do bem-estar máximo). Trata-se então de uma moral eudemonista, mas que, ao contrário do egoísmo, insiste no fato de que devemos considerar o bem-estar de todos e não o de uma única pessoa." Quer dizer, mesmo sob a ótica do utilitarismo, dá para ver que mesmo pessoas "imperfeitas" podem trazer um bem à sociedade. Gênios como Stephen Hawking, por exemplo, a doença dele (Esclerose Lateral Amiotrófica), é causada por uma alteração genética, sendo que pode passar de pais para filhos. Ainda que pensando pelo utilitarismo pura e simplesmente, privá-lo de viver teria privado a sociedade de todos os bens que ele causou. Ou seja, impedir um feto de nascer por causa de uma doença genética? Além de desumano, pode privar o mundo de pessoas brilhantes, como você disse.

    Mas, bancando a advogada do diabo: como eu disse, concordo com você, mas sempre que falo isso, me questionam o "e se" ... E se a "edição genética" (pois eu sou a favor disso, e não de se criar um filho com os melhores genes como se estivesse comprando um filho on-demand, ...) acabar virando apenas algo acessível aos ricos? E quanto ao mercado negro? (Eu penso que a tecnolgia é neutra e o ser humano pode ou não fazer maldade, mas o que você acha dessa "corrupção possível do sistema" e suas implicações?

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    1. E se for só para rico? Com certeza no começo vai ser, como todas as coisas que tem um pontapé inicial. Possivelmente com o tempo os preços vão ficar mais populares.
      O mercado negro vai existir sempre e possivelmente esse com certeza vai ser para os ricos. Mas não seria interessante ter a tecnologia de saber todos os dados da pessoa e assim descobrir quem foi feito no mercado negro de modo perfeito? Imagina o choque que aconteceria, o preconceito envolvido. Ou o contrário, a população mais jovem lutando para ter a liberdade de escolher a eugenia positiva.
      Por isso quis destacar a bioética. Se as pessoas tiverem bioética com certeza seria uma tecnologia maravilhosa. Mas como vemos na Islândia, a bioética vai para o saco rapidinho quando está em jogo os desejos egoístas do ser humano.
      Contudo, pesando os prós e os contras acho que devemos dar uma chance para essas modificações, pelo menos na eugenia negativa. Ela ajudaria futuras crianças que teriam um doença gênica que poderia trazer sofrimento para elas. E torcer para que as pessoas não se tornem tão horríveis (o que eu não dou nem um século para acontecer)

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