O ódio que você semeia e o racismo velado e escancarado nas telas




O ódio que você semeia é um filme que não apenas cutuca várias das feridas causadas pelas formas como o racismo está enraizado em nossas sociedades (e não só a americana), e é um filme extremamente importante, tanto hoje quanto sempre. Sempre se fez necessário que os filmes abordassem mais a fundo e com mais frequência questões das chamadas “minorias”. Tive a oportunidade de ver esse filme em primeira mão, na Mostra do Cinema Negro, e adorei o modo como tudo foi mostrado com tanta clareza e peso que não tinha como não ficar com o coração apertado com o desenrolar das coisas na trama do filme. 

Starr (Estrella), cujo nome… Bem, apague isso momentaneamente. 

Sim, há muito mais ligado à ideologia de TuPac nesse filme além do lema “T.H.U.G. L.I.F.E.” (traduzido como VIDA BANDIDA, mas que é um acrônimo que explicarei mais adiante...), e ainda falarei sobre isso. 

O filme começa com o pai de Starr “ensinando” aos filhos como agirem e reagirem se forem parados pela polícia. 

É triste ver que é algo quase “normal” presumir que isso vá acontecer um dia, ou várias vezes em suas vidas, pelo simples fato de que eles são negros. Mas aquele pai também fala sobre o orgulho de sua negritude, e dos direitos deles, e aí entra o Programa de Dez Pontos dos Panteras Negras.

Falando em Pantera Negra, em um ano em que o filme da Marvel foi indicado ao Globo de Ouro, deveríamos pensar que esse preconceito ficou para trás, não? Não. The times are a changin’ [Os tempos estão mudando], como disse Bob Dylan em 1964, mas o preconceito e os estereótipos negativos e o racismo e a misoginia e um misto dos dois, tudo isso está bem arraigado em nossa sociedade - e não nos esqueçamos de que a #OscarTãoBranco surgiu em 2016, e por mais que se tenha avançado alguns passos, passinhos de bebê, na verdade, muitos outros passos ainda precisam ser dados. E, ao contrário de Spike Lee em Infiltrado na Khan, que aborda o preconceito nu e cru, escancarado, em O ódio que você semeia ficamos cara a cara com o preconceito velado, muitas vezes até mais nocivo, porque é preciso afundar um pouco mais a mão na terra para puxar as raízes desse grande mal. 



O ódio que você semeia é um filme intenso. Que mostra uma garota dividida entre dois mundos e que é forçada pelas circunstâncias a encontrar sua voz. Já tendo se calado antes, quando a amiga de infância morreu, Starr acaba se tornando o foco das atenções da mídia por ter testemunhado a morte do amigo, Khalil, quando eles foram parados por um policial branco que o matou por achar que sua escova era uma arma. Próximo demais da vida real, não? Porque a adaptação do livro de Angie Thomas toca em pontos delicados, mas bem reais, infelizmente. O racismo estrutural está entranhado em nossa sociedade, em que até mesmo alguns negros em posição de poder, como podemos ver pelas atitudes de alguns policiais no filme, especialmente o tio de Starr, agem com racismo em relação a seus semelhantes. Afinal, alguns oprimidos em posições de poder podem acabar vindo a se tornar opressores… Como também vimos no supramencionado filme do Pantera Negra. 



O ódio que você semeia entre as criancinhas fode com todo mundo. The Hate You Give Little Children Fucks Everyone. T.H.U.G.L.I.F.E. Veja aqui em inglês, um texto sobre como TuPac influenciou o livro e o filme com suas ideologias, até mesmo no nome da personagem principal (em inglês). O nome Starr é um tributo a TuPac e à filha que ele nunca teve. 

Com atuações tensas e intensas, mostrando como o ódio semeado acaba dando fruto, mas como podemos reverter esse ódio, esse preconceito, mesmo que seja com uma sementinha plantada por vez, não importa. O amor que você semeia entre as criancinhas (e os adultos também) beneficia a todo mundo. Quando criados de forma marginal )no sentido de "à margem da sociedade, e não necessariamente como criminosos) e inseridos na cultura de ódio, muitas crianças podem se tornar adultos terríveis, descontando nos outros suas fúrias e frustrações. Temos uma cena especificamente assustadora no filme para ilustrar esse caso. Com uma criança. A mensagem foi passada, em alto, claro e bom som. 

Impecável, irresistível, carismático, ainda que lidando com um tema tão terrível.

Nota: Os 10 pontos do programa dos Panteras Negras, com certeza.




Para saber mais sobre o Programa de Dez Pontos dos Panteras Negras e os Panteras Negras em si (não o super-herói da Marvel), clique aqui.


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