Assunto de Família: Um filme que nos entrega uma trama que prende e nos prova que família está além do sangue


Começo esse texto com uma confissão: não sou de assistir a muita coisa de cinema arte. Ok, sei que muitos haverão de me criticar ou, até mesmo, dizer que não sou a pessoa mais indicada para escrever este texto, porém sempre é importante ressaltar que, mesmo não sendo tão acostumado com cinema arte, sou adepto do lema de que filme bom se sustenta por sua narrativa e por saber atrair o público no qual ele se foca. Logo, posso dizer que Assunto de Família é um exemplo claro em que isso se encaixa.

O filme, que é dirigido por Hirokazu Kore-eda, conta com uma narrativa que é bem focada no cotidiano de seus personagens, e possuí um ritmo narrativo que, a princípio, parece lento e sem propósito. Contudo, à medida que a narrativa avança, mais notamos o quanto aquele cotidiano pode fazer parte de qualquer família de classe baixa ao redor do mundo. Porém, aqui há uma sutileza maior em trabalhar com esta narrativa, pois todos os personagens apresentados na trama possuem tempo de tela suficiente para que haja uma exploração deles, sem contar que nenhum fica subaproveitado ou relegado a uma mísera aparição, sendo bem trabalhados dentro do que se espera de um filme com duas horas de duração.



Além disso, é preciso mencionar que o ato final carrega uma reviravolta que impressiona o público, pois é algo que surpreende quando acontece, e nos ajuda a traçar um paralelo ainda maior com o cotidiano de qualquer local; afinal de contas, estamos falando de uma história em que toda a família, de um modo amplo, possuí seus problemas e segredos. Segredos esses que, quando são desconstruídos, nos dão um choque de realidade muito notório, nos fazendo sair da zona de conforto e refletir em um todo.

A trama consegue nos atordoar e nos prende pelo tempo de duração que a película tem e, sendo bem honesto, para um filme de drama com um ritmo devagar, isso pode e deve ser encarado como algo que merece ainda mais pontos; porque houve um real empenho em manter um ritmo linear e uma trama bem coesa e que não se contradiz; ela apenas se mantém e cresce à medida que vai revelando seus segredos e pontos de resolução.



Cabe também citar que as atuações estão bem competentes e conseguem passar de forma hábil o que seus devidos personagens pedem ao longo da trama, personagens estes que conseguem nos dar uma dimensão cada vez mais incrível de sua profundidade e de seus defeitos, se tornando, assim, pessoas ainda mais humanas e nos gerando a empatia necessária para que, no fim, haja um real aproveitamento da questão que nos é levantada. É uma trama que gera sua urgência sem correr e sem firulas, um retrato cru de uma família pobre no Japão, e isso é trabalhado sem forçar a barra ou criando estereótipos, pelo contrário, carrega uma frieza e uma honestidade ímpares. 

Claro que também há espaço para mencionar que, após terminarmos de ver a película, fica claro o porquê de o filme ser indicado à categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar e que tenha levado a Palma de Ouro em Cannes; afinal, estamos diante de uma obra que realmente carrega uma estética bem singular de um drama que poderia acontecer em qualquer canto do mundo. É uma obra que merece ser visto por todos que procuram um filme mais artístico e honesto no que se propõe, logo é bem indicado para quem ama uma boa obra dramática mais focada no cotidiano.

Nota: 5 famílias que superam as adversidades (5/5)

Texto escrito pelo nosso Cadete Honorário, Paulo Raposo, cuja bio estará disponível em breve, pois, no momento, ele deve estar em alguma missão em outro planeta ;) 



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