#Oscar2019 - Guerra Fria: Amor em Tempos Difíceis



Ao longo de mais de uma década de Guerra Fria, um músico experiente e uma cantora talentosa tentam vencer obstáculos externos e dramas internos para viver um amor impossível.


Em meados dos anos de 1950, Wiktor (Tomasz Kot) já era um músico respeitado em sua terra natal, a Polônia. Junto com sua equipe, ele percorre aldeias isoladas, registrando canções populares com seu gravador. De volta à capital, ele participa pessoalmente da seleção de candidatos para compor um grupo folclórico polonês de música e dança. Entre os escolhidos está Zula (Joanna Kulig), a jovem promissora que conquista a vaga (e o coração de Wiktor) devido ao seu comportamento ousado.

Mas a fama que o grupo ganha no país faz com que os olhos do governo se voltem para ele, enxergando ali o veículo perfeito para a difusão de mensagens nacionalistas. Ofendido ao ver a arte corrompida por ideais políticos e pela fome de poder dos governantes, Wiktor propõe a Zula que fujam do país. E aí começa uma série de desencontros e reencontros do casal, que, nos anos seguintes, conseguirá vivenciar seu amor de forma breve e intensa em meio a dilemas pessoais e dificuldades impostas por terceiros.

A música é um elemento fundamental da trama e, se prestarmos atenção na letra da canção-tema, não é difícil adivinhar o final da história. As mudanças de ritmo e estilo musical também são outro indício (o filme começa com músicas folclóricas e danças animadas e termina com jazz e letras em inglês incapazes de traduzir o significado e o sentimento contidos nas canções originais).

Essa impossibilidade de se reconhecer no que canta gera uma sensação de não-pertencimento, uma das principais questões de Zula, que faz com que ela relute em deixar seu país por medo de perder sua identidade (o que de fato acontece: ela perde a nacionalidade, perde a língua materna e perde o reconhecimento como artista que havia alcançado em sua terra natal). Wiktor também sofre com a distância de casa, mas o peso para ele é menor: ele é mais velho, sua carreira é pouco afetada, e ele consegue até manter sua identidade em terra estrangeira.

Cheio de saltos no tempo, o filme se concentra em mostrar os reencontros do casal em diversos momentos e situações. A Guerra Fria, em si, não é mostrada, mas é possível vislumbrar o desenrolar da História a cada nova reunião de Wiktor e Zula, inferir que, assim como o relacionamento dos protagonistas, o comunismo também vai se desintegrando ao longo dos anos.

Com um visual em preto e branco belíssimo, a escolha do diretor vai além da estética pura e simples e, como ele mesmo disse em uma entrevista ao The Guardian, se justifica pela intenção de soar como uma combinação de memórias evocadas daquele período com realidades inventadas. A inspiração veio de fotografias antigas de álbuns que ele guarda com cuidado. Aliás, o enredo tem muito da história de vida dos pais do diretor (sua mãe, Zula, dançava num dos grupos folclóricos criados na época da Guerra Fria; seu pai, Wiktor, também viveu exilado após deixar o país cruzando ilegalmente a fronteira da Alemanha Oriental – até o final da trama imita a vida real!), ainda que não seja uma obra biográfica.

Uma história de amor contada com apuro visual e uma trilha sonora marcante.

P.S. Aqui no blog também tem a resenha de Guerra Fria feita pelo Bruno na época da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo.

Nota: 3 acordes (3/5)
Estreia: 7 de fevereiro



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