Não olhe: suspense se equilibra entre a loucura e o sobrenatural, mas acaba perdendo de vista seus pontos focais principais



O novo suspense/terror “Não olhe”, que pode ser visto de duas maneiras, como uma parábola com toques sobrenaturais ou sob um viés de loucura e dissociação de personalidade, tem premissas boas, esbarra em clichês do gênero, não se aprofunda no drama e nos entrega personagens nada carismáticos, dificultando que acabemos tendo por quem torcer. 

Cheio de possibilidades, o longa acaba esbarrando na corda que usa para laçar temas complicados e que seriam bem-vindos se bem abordados, e com esta se enforca.



Eu terminei de ver o filme e fiquei me perguntando não somente se aquilo seria possivelmente sobrenatural ou se abordava a dupla personalidade, ou até mesmo o uso desta como uma desculpa para soltar as amarras que prendem um ser humano à decência e cometer atrocidades sem fim, ou se aquele era mais um dos filmes que fracassou no que poderia ter sido, na abordagem rasa de possíveis complexos de Édipo, codependência, bullying, entre outros temas pincelados na tela de “Não Olhe”, mas nunca abraçados nem abordados com a devida profundidade que esses temas pedem. 

Se o objetivo era simplesmente chocar, o diretor conseguiu, mas se pretendia realmente adentrar os complexos campos lamacentos da perturbada psiquê humana, a falha foi grande, e a bola voou para longe do campo, deixando os espectadores não mesmerizados com um resultado digno de nota nas telas, mas sim com um rascunho de quadro pintado sobre diversas cores e temas que por algum motivo não foi finalizado. 


Não simpatizamos com a “protagonista” (que acaba se tornando, assim, a vilã), muito menos com sua vingança, e nem mesmo filmes bem toscos como “Samara” e a “A vingança de Carrie” em algum momento deixam de nos fazer sentir empatia por alguém. Acho que esse é de fato o grande problema de “Não olhe” (no inglês, “Look Away”, que pode ser traduzido como “Olhe para o outro lado”, no sentido de não ver o que está, de fato, acontecendo, ou fingir que não vê - e o longa parece que acaba fingindo que não vê os próprios problemas que tenta mostrar...). 

O grand finale é cheio de nudez e sangue desnecessários, e não estou dizendo isso por nenhum motivo pudico. Muita coisa não faz sentido, é insinuada e nunca explicada no filme, e isso não causa uma experiência no telespectador de ficar tentando juntar as pontas soltas nem nada do gênero, mas apenas nos deixa perdidos em um mar de sangue e de vingança em meio a temas que são um prato cheio para qualquer (bom) psicanalista: rejeição familiar, falta de amigos, dissociação de personalidade ou simplesmente mau-caratismo, entre outros, como a fascinação pela beleza perfeita, mas nada disso é bem explorado no filme. 


Somos largados em um mar à deriva com os destroços de uma obra que poderia ter sido no mínimo mediana, mas que deixa aquele sabor amargo na língua, aguçado pela promessa de um cardápio de delícias quando acabamos comendo os refugos queimados da refeição.

Creio que meu texto tenha ficado mais poético do que a obra em si, mas não há muito mais a se dizer sobre este filme que pecou pela promessa que faz com suas premissas e acabou nos deixando em um inferno saturado de tons escuros e em um mar cheio de verdes também escuros e muita decepção.


Nota: 2 imagens retorcidas em um espelho quebrado

Trailer:


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