Raiva: o neorrealismo em sua forma mais pura e bela



A história se passa na década de 1950, nos campos de Baixo Alentejo, no sul de Portugal, onde o emprego praticamente inexiste, a não ser que seja trabalhando para Reis, e mostra as dificuldades de uma família quando Palma, o patriarca, perde o emprego e está sem trabalho há quase um ano.

Sérgio Tréfaut assina o roteiro, baseado na obra literária de Manuel da Fonseca (“Seara de Vento”), e, de uma forma inteligente, não explica praticamente nada sobre o que está acontecendo, somos gradativamente apresentados à trama e aos problemas de Palma e sua família, o que, em si, poderia ser um grande problema, mas de cara o roteiro nos prende, e mesmo que não estejamos entendendo nada, queremos continuar assistindo ao filme para saber o que vai acontecer, e nesses pequenos momentos o longa começa a explicar tudo o que aconteceu para essa família estar na situação em que se encontra, porém, são nesses pequenos momentos que surgem dois problemas, o ritmo e o tempo de duração do longa.



O segundo ato acaba parando demais para explicar coisas que o público provavelmente já deduziu, e o ritmo cai de uma forma absurda, e parece que era obrigatório que o filme tivesse seus 90 minutos de duração. Em muitas cenas, fica evidente que seguraram o máximo, até o ultimo frame de filmagem para alcançar o tempo, enquanto o terceiro ato tenta recuperar o ritmo e acelera até o clímax, que é de uma beleza impecável.


Sérgio Tréfaut também dirige e, junto de seu diretor de fotografia, Acácio de Almeida, faz uma obra-prima esteticamente falando, filmada em preto e branco. Faltam-me adjetivos para falar sobre tamanha beleza visual. Merecem destaque a cena de abertura, o trabalho de luz e sombra, os planos fixos e simétricos, a fotografia à noite — é o neorrealismo em sua forma mais pura e bela, e o diretor ainda acerta em cheio por quase ter trilha sonora por boa parte do longa, e ouvimos até o som do vento passando pelo gramado.

Hugo Bentes, que já havia trabalhado com o diretor, faz Palma, e é dele que vem o título do longa. Ele interpreta um homem justo, que queria sustentar sua família e que teve tudo que era seu tomado por Reis. Praticamente, o único sentimento que lhe resta é a raiva, por seu ex-chefe ser dono da cidade, por não conseguir comida, por sua filha ser mulher e acabar trazendo um pouco de dinheiro para casa... durante todo o longa vemos sua raiva sendo aumentada até o ponto em que ele estoura e decide fazer justiça com as próprias mãos, e Hugo tem uma bela interpretação, em pequenos momentos notamos que, apesar da raiva, ele só quer cuidar de sua família e aos poucos vai endurecendo com tudo que acontece em sua vida.


Leonor Silveira faz Júlia, a esposa de Palma, e interpreta uma mulher que tenta apoiar seu cônjuge, mas vai aos poucos perdendo a razão por não ter uma perspectiva de melhora. Vale notar a presença da atriz em cena, que vai crescendo conforme o filme avança, e no final ela acaba protagonizando uma cena tão belíssima quanto trágica.


Diogo Doria interpreta Reis, o antagonista de Palma, e apesar de seu personagem demorar a aparecer, entendemos completamente a raiva do protagonista: ele é duro, comanda todos na base do medo, e se a ideia era nos deixar com raiva também, ele consegue realizar este feito de maneira impecável.


Raiva é um longa extremamente bem produzido, em todos os aspectos, mas peca por se estender demais; se estivéssemos diante de um curta de no máximo 40 minutos, seria uma obra-prima moderna do neorrealismo, mas vale a pena assistir a esse longa do cinema português, que outrora já foi gigantesco. 

Nota: 5 estrelas coloridas em um mundo preto e branco (5/5)

Crítica por: Carol
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