Polêmica: A cor RUIVA dos cabelos da Ariel realmente importa?


Vou direito ao assunto da polêmica: Embora segundo a própria Disney, a escolha dos cabelos ruivos de Ariel em A pequena sereia tenha sido quase que meramente estética - era para ela ser loira, escolhas quase sempre óbvias na época, mocinhas brancas e loiras…, mas, por causa de um outro filme recente Splash - Uma sereia em minha vida, em que Daryl Hannah era loira, escolheram o vermelho para cair bem com a cauda verde. Uma escolha estética, sim. 

Vamos por partes: No conto de Andersen, não há definição da cor dos cabelos de Ariel. Sim, já li e reli o conto e, nada. Me corrijam se deixei passar o detalhe. Com educação. Qualquer comentário ofensivo será deletado sem resposta, pois não alimento trolls (alguns até dizem que sereias não existem então podem ter a cor que quiser na ficção, mas trolls da internet existem e são de todas as cores...) A versão original do conto é mais curta e bem mais apavorante: se quiserem, leiam aqui e tenham bons pesadelos.

Na verdade, pelos meus estudos sobre contos de fadas, eles eram, na verdade, a princípio, “contos de advertência”, para manter as mulheres quietinhas no que o mundo machista achava que era seu devido lugar.  Isso já é um terror, não?


Então, obviamente que as personagens seguiam o padrão de beleza da época em que as histórias foram criadas. No conto de Andersen, de fato Ariel tem olhos azuis, mas podem ser vistas algumas ilustrações antigas em que ela é retratada como loira. 

Amo a animação, mas convenhamos: tanto na versão da Disney quanto nos contos, Ariel faz de tudo pelo homem. Ela se anula... é, eu sei… podemos gostar de uma obra e ainda assim admitir que ela tem umas boas pinceladas machistas, e não precisamos usar “ah, mas era a época”, como desculpa.  

Também usar a desculpa, como vi no Twitter, de que sereias não existem e elas podem ter qualquer cor de pele e cabelos é simplista demais. Em Once Upon a Time, série da ABC que pertence à Disney, Ariel é ruiva e Úrsula é negra. Aí vocês poderiam dizer: Mas Úrsula é a vilã! {SPOILER ALERT] Não é bem assim não! Como já dissertei aqui, nesse texto sobre os tons de cinza entre os heróis e vilões, Úrsula, em Once Upon a Time se enquadra perfeitamente na definição grega de heroína trágica. 


Vamos falar em minorias: Ser naturalmente ruivo é resultado de uma mutação genética. Os ruivos (naturais) representam cerca de 1 a 2% da população mundial!

Ruivos foram oprimidos no passado: Fato recente da história: Na Alemanha Nazista, os ruivos eram considerados maus e satânicos, e Hitler chegou a proibir o casamento entre eles, por temer o surgimento de uma prole demoníaca. Ruivos (especialmente ruivAs) foram muito “usados” em histórias de terror, geralmente como vampiras. 

A atriz é naturalmente looira. Como a
vampira Jessica, em True Blood... ruiva
***
Lucy, de Drácula de Bram Stoker... também amo o filme, mas...
ela só "serve" ao propósito do macho até ele conseguir sua verdadeira amada...

Já vi usarem o argumento de negros ruivos/mestiços: Ainda assim, estamos aqui falando de ruivos naturais. Que são minoria. Que foram demonizados no passado. Entre os séculos 15 e 16, muitas RUIVAS foram queimadas nas “Santas” fogueiras da Inquisição.  Tem mais, remete até o Egito antigo, senão antes, há muito ainda a se estudar, pesquisar, mas o que temos como base de pesquisa já prova e comprova muita coisa.

Clique na imagem acima para ler (mais) um texto ótimo e com bases históricas sobre a perseguição aos ruivos/às ruivas
Então, sim, para quem realmente, como eu, leva tudo isso em consideração, a escolha não foi ideal. Eu digo que não foi ideal, não digo péssima, mas se querem representar minorias, por que não escalar uma ruiva natural? E isso de dois pesos e duas medidas? Fazer whitewashing com asiáticos (que, diga-se de passagem, acho, sim, errado) gera fúria, mas trocar uma minoria (a ruiva) por outra (a negra) não tem problema? 

A Hera Venenosa pode até recentemente ter virado anti-heroína, mas ela era originalmente uma vilã, RUIVA. 

Então, não manter a “ruivice” da Ariel no live-action, é descartar uma oportunidade de desestigmatizar as ruivas em prol de uma representatividade em que o tiro super sai pela culatra (e quem lê o que escrevo aqui sabe que sou super a favor da representatividade e diversidade) que, nesse caso, vejo mais como uma oportunidade perdida. Mesmo que a atriz seja boa, mesmo que ela tinja os cabelos, ela não é uma ruiva natural, parte de 1 a 2% da população mundial. 

Vou deixar de ver o filme por isso? Não, pois não deixo de ver um filme apenas por discordar de uma escolha de casting. Impliquei com Anna Diop como Kory Ander/Estelar na série Titãs? Não, e ainda amei, tanto a atriz, sua atuação como a série.  Por que não? Ela não é a protagonista, a série tem um cast bem diverso, e é bem diferente do impacto causado uma protagonista ruiva, como já falei acima. São casos e casos. 


Antes que também citem Mary Jane Watson, para quem conhece um pouco das histórias dos quadrinhos, ela foi criada como par romântico de Peter Parker, depois de matarem (minha amada) Gwen, pois, é isso mesmo… depois que eles se casaram, eles não sabiam o que fazer com o Homem-Aranha. Então, não, para mim, pelo ícone, pelo que podem atualizar (ou seja, tirando os toques machistas da(o)(s) animação/contos originais), foi uma pena não manterem uma ruiva. Natural. Minoria, sim. Perseguidas, sim. 

Aproveito para fechar esse post (polêmico, eu sei) com uma indicação: Entrevista com a autora de “A pequena sereia e o reino das ilusões”, uma recontagem com uma perspectiva feminista, em que, obrigada, Ariel continua ruiva!


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