Maria e João - O conto das bruxas: um conto admonitório moderno com ares antigos



Os contos de fadas com finais felizes são uma "invenção" relativamente "moderna".  As histórias originais são bem mais sombrias, conhecidas como cautionary tales, algo como contos admonitórios. Maria e João - O conto das bruxas é um filme sombrio que capta um pouco do sentido original do famoso conto de João e Maria.

Já começamos com a inversão nos nomes no título o que, a princípio, poderia indicar apenas que o filme segue a tendência "feminista", digamos assim, mas, de fato, podemos dizer que Maria vem primeiro no título porque ela é a protagonista da história. 



Se nos contos modificados, temos geralmente a figura da madrasta como a má, neste filme, Maria e João - O conto das bruxas, temos a mãe como a figura "má", que coloca os filhos para fora de casa e que sugere saídas horríveis para Maria, como ir para um convento ou ceder aos caprichos de um homem nojento, ao que tudo indica, um pedófilo.

O conto é "das" bruxas porque não temos apenas uma bruxa, aquela da casa cheia de fartura e comida com uma origem bem sombria. A própria Maria é uma bruxa, e ser bruxa necessariamente não é colocado como algo ruim, já que o filme expõe, embora não deixe claro, que a escuridão pode estar lá, afinal, ninguém é 100% bom ou mau, mas são nossas escolhas que moldam os rumos de nossas histórias.



A fotografia do filme é sublime, seu ritmo é lento, mas não é cansativo. O filme está longe de ser perfeito, mas chegou bem próximo de uma adaptação, senão mais fiel ao conto original, pelo menos servindo como um conto admonitório moderno. A mulher precisa criar seu próprio rumo, independente de mãe, pai, irmão, independente de figuras masculinas e também de modelos exemplares. Cada ser humano é único e, neste RPG que é a vida, são nossas escolhas, dentro do que nos é ofertado pela vida e pelos outros, que abrem ou fecham portas.

Maria e João - O conto das bruxas é um filme que vale a pena ser visto, ainda que não seja o melhor filme do gênero, foge a clichês e deixa portas abertas para que nossa imaginação vá além, o que é muito bem-vindo em uma obra da sétima arte, em que temos, infelizmente, muito mais do mesmo.

Nota: 3 roncos de porco

Trailer:



Comentários

  1. Parece interessante essa releitura, Ana. Inverter os papéis e o protagonismo...

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