#rastreandodistopias: Distopia: Origens e Evolução






Se a literatura apropriou-se de um termo político, i.e., distopia, para designar um gênero literário, devemos nos lembrar de que a Utopia surgiu na literatura, termo cunhado por Sir Thomas More para seu livro, de 1516, intitulado “Utopia”, em que ele descreve uma ilha fictícia no Oceano Atlântico, termo que foi depois usado para designar comunidades que tentam criar uma sociedade ideal, perfeita (e, por isso, acontece de quem vive em uma distopia não saber disso, se tudo para tal indivíduo “parece” perfeito) e também na literatura, claro, em livros utópicos escritos após o de More (e antes também, como “A República”, de Platão). Só que More também era político, mas estou me adiantando…

Sendo assim, muito antes do uso político, na verdade, alegado, de que o termo distopia foi usado pela primeira vez em 1868 por Greg Ebber e John Stuart Mill em um discurso no Parlamento Britânico, também não se poderia dizer que, na verdade, nem um lado nem o outro se apropriou de nada e sim que isso é uma “conversa” entre as ciências? As ciências políticas, as ciências literárias, afinal, a vida está em constante evolução e, por que isso não haveria de acontecer com a literatura? Como ocorre com a evolução sociocultural, tecnológica, entre outras; é uma constante, e o próprio termo “distopia” cada vez abrange mais características diferentes, de acordo com a época em que tais obras distópicas são criadas.


O primeiro iPad reproduzindo o filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço. A ficção como precursora da
realidade.
Vamos analisar alguns pontos entre obras ficcionais e a realidade. A ciência tecnológica deve muito à
ficção científica, já que pessoas voltadas ao desenvolvimento de tecnologias “usaram” como base “objetos” criados em obras de ficção científica e os tornaram realidade. E por que citei ficção científica?
Porque uma grande maioria das obras distópicas pertencem a esse gênero, embora a fantasia, o sobrenatural, entre outros, também se apropriem da distopia para transmitir suas mensagens.

Vou citar Star Trek e falar sobre apenas uma das muitas tecnologias da série/dos filmes que já se tornaram realidade: O Tricorder.
"Um dos mais úteis instrumentos disponíveis para o pessoal da “Star Trek”, o tricorder tinha variações (médicas, de engenharia ou científicas) que foram usadas para avaliar qualquer coisa – dos níveis de oxigênio à detecção de doenças. Quase sempre o tricorder dava uma análise inicial do novo ambiente. Por isso, qual a conexão com o mundo real? A Nasa emprega um dispositivo de mão chamado Locad, que mede microrganismos indesejados, como E. coli, fungos e salmonela, a bordo da Estação Espacial Internacional. Além disso, dois dispositivos de mão médicos ajudam os médicos a examinar o fluxo de sangue e a checar por câncer, diabetes ou infecção bacteriana.” 

Mas vocês já devem estar se perguntando: aonde você quer chegar? É simples e não é. “Coisas” imaginadas em livros já foram ou estão tentando ser implementadas na realidade em termos de ficção científica ― é a literatura ajudando a realidade a seguir evoluindo. E o que isso tem a ver com distopia e utopia?

Citando ainda Star Trek, em teoria, o futuro por eles criados é intencionalmente utópico, mas, se analisado a fundo, não tem nada de perfeito, em termos sócio-políticos e jurídicos, segundo o significado abrangente do termo criado por More. Porém, se formos mais a fundo, “utopia” vem do grego, e quer dizer “não lugar”. Bizarro, não? “Não lugar”, então utopia não tem como existir na vida real, certo? Sim e não.



Porque o conceito não se restringe a isso. A utopia é impraticável, porque a perfeição é inexistente, já que o ideal varia de pessoa para pessoa e de lugar para lugar. O que é “perfeito” para você, pode não ser “perfeito” para mim, e levando isso a sociedades maiores, não é “perfeito” para uma cidade rural que sobrevive de suas plantações, que todas essas plantações sejam destruídas para dar lugar a uma rodovia, por mais que isso seja “perfeito” para o comércio de outros lugares, por exemplo, pois vai prejudicar a cidade. E aí entramos em um dilema: afinal, então não existe utopia na vida real?

Segundo alguns estudiosos, se considera utopia tanto a tentativa de criar, na vida real, o lugar perfeito, quanto tais tentativas na literatura. Porém, analisando a fundo, a utopia é sim impraticável, já que, mesmo se considerando seu homófono, eutopia, em inglês, também vindo do grego e que significa “lugar bom”, isso também é relativo.

Então, por que a distopia pode existir na realidade? Bem, a palavra distopia, como já mencionei na resenha de Coraline, o prefixo grego dys (δυσ-) significa “doente”, “mal” e “anormal”, sendo assim, uma Ditadura, como a que tivemos no Brasil, é sim algo distópico. Não há como negar isso, e citei apenas um exemplo. Muitas coisas citadas em “1984” já são aplicadas hoje em dia, como o controle por câmeras de segurança por toda parte, ainda há lugares em que a “Sociedade” e/ou o “Governo” dita as regras do que cada cidadão haverá de fazer e ele ou ela será punido se for contra o Sistema e isso, para algumas sociedades beira o inaceitável, e para outras é visto como “normal”. Apedrejar adúlteras é visto como “normal” em algumas culturas, entre outros horrores. Citando apenas um exemplo.
Se você vive em um lugar com elementos sócio-políticos e jurídicos que fogem a um padrão não de “normal”, pois a normalidade também é relativa, mas que é injusto, cruel, covarde, como nos casos em que música está sendo usada como tortura na vida real, sim, como em Laranja Mecânica, chegando a ser “doente” e “mal” e, sim, “anormal”, para sociedades que condenam qualquer forma de tortura, quanto mais a tortura com músicas em decibéis altíssimos, com pessoas encapuzadas, no escuro e sem senso de direção. Esse é sim um elemento distópico na nossa realidade, e isso é triste.

Eu acho, e aqui eu digo eu acho por opinião mesmo, e não achismo, um absurdo que exista uma Faculdade em homenagem a Getúlio Vargas que, como em “Fahrenheit 451”, queimava livros, a famosa FGV, mas se vocês virem “O que é isso, companheiro?”, o filme, de 1977, também lançado nos Estados Unidos, com o título “Four Days in September”, com base em fatos, dará para ver uma “amostra” de como as pessoas agiam na Ditadura achando que estavam cometendo o “bem” ao denunciar pessoas para serem presas e torturadas. Distópico, tenso, cruel, horrível e muito real. Embora eu tenha citado um filme, há provas documentais disso que acabei de falar. E aqui faço uma pausa para vocês refletirem, antes de delinear um pouco melhor as 3 ondas de distopia que refletem o “momento” em que são escritas. Eu ia na verdade falar sobre essas 3 ondas distópicas aqui e agora, mas deixo um tempo e uns links para vocês refletirem um pouco antes de voltar ao tema.

Se pararmos para analisar nosso dia a dia, a coisa fica ainda pior. Avisos imensos no metrô de São Paulo que sugerem, subliminarmente, que se você não segurou direito sua bolsa, com os dizeres “Onde está asua bolsa agora?”, praticamente a culpa pelo roubo é colocada na pessoa roubada, sinceramente, esse é um elemento tão distópico quanto chocante. Se vocês acham normal algo assim, e normal um aviso similar sobre a sua carteira, bem, talvez vocês já tenham se acostumado com o sistema e tenham começado a defendê-lo, como já foi dito em Matrix.

Lembrando que Thomas More, o autor do livro “A Utopia” não era meramente um escritor, mas também um advogado, político e humanista renascentista ― esse termo não surgiu apenas na mente de um literato, pois ele era mais do que isso. Ele realmente desejava que a utopia fosse praticável, e ele foi, inclusive, canonizado pelos católicos. Tem muita coisa a ser falada sobre o More, mas vou me ater ao básico aqui, e no fim do artigo passarei mais links a vocês. E, também lembrando que distopia derivou de utopia e foi um termo primeiramente usado em um contexto político, não há como se negar a existência da distopia na vida real.

Antes de falar das ondas distópicas na literatura, vou comentar mais algumas coisas: se a ficção científica, em termos de filmes, literatura, enfim, arte, ajudou a tecnologia a criar possibilidades, sócio-cultural-politicamente, a distopia existe na vida real, e só não vê quem não quer, o que acaba ocorrendo, infelizmente, entre diversos membros da sociedade distópica que, como eu disse, que defendem o Sistema (olá, Bolsominions!), como foi o caso até mesmo na Ditadura no Brasil (e como estamos vivendo e revivendo nesse "desgoverno" atual. Mas também não enxerga a distopia na realidade quem prefere tampar os olhos para os horrores a seu redor “para não sofrer”, ou, pior ainda, porque é alienado e, já que não tem jeito mesmo de mudar, vamos pensar em pôneis cor de rosa que é melhor… =/
 

Artigo e pesquisa por: Ana Death



Leituras/filmes recomendados e outras fontes para pesquisa:

  1. O que é isso, companheiro? (livro e filme)
  2. Olga – filme também com base em fatos, da época da Ditadura de Getúlio Vargas
  3. A utopia e a formação urbana de Penedo: a criação, em 1929, e o desenvolvimento de uma colônia utópica finlandesa no estado do Rio de Janeiro
  4. Entre a utopia e o labirinto: Democracia e autoritarismo no pensamento educacional brasileiro dos anos de 1980
  5. Thomas More e a crise religiosa no pensamento humanista: o impasse da utopia. O livro, emdomínio público, Utopia, de Thomas More
  6. E, ainda, Utopia/distopia e discurso totalitário: uma análise comparativo-discursiva entre Admirável mundo novo, de Huxley, e A república, de Platão, uma Dissertação de Mestrado que examina o tema
  7. Utopias/Distopias e o discurso totalitário em duas obras de caráter e gênero distintos: A República; de Platão (Filosofia); e Admirável Mundo Novo; de Aldous Huxley (Literatura). Tendo como objetivo principal a comparação de elementos narrativos; temáticos e ideológicos encontrados nessas duas obras; utiliza como metodologia a análise embasada em referenciais da Literatura Comparada e da Teoria d Literatura (Narratologia e a Tematologia); da Análise do Discurso Francesa; dos estudos da obra de Platão e de estudos sociológicos. Esta análise segue a sequência de apresentação dos pressupostos teóricos; análise das obras de Platão e de Huxley (em seus aspectos internos e externos); para, finalmente apresentar um quadro comparativo com os discursos totalitários retirados dessas obras, discursos esse que são analisados em pormenores. Por fim; esta Dissertação culmina com a compreensão de que o tema utopia/distopia; e os discursos acerca dele; não se restringe somente à literatura ficcional; mas pode ser encontrado em estudos filosóficos e políticos; e no nosso dia a dia.
  8. Amor, casamento e sexualidade: velhas e novas configurações – ARAUJO, Maria de Fátima. Amor, casamento e sexualidade: velhas e novas configurações. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 22, n. 2, jun. 2002.












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