#momentotelecine: Dogman - O retrato de uma realidade que nos coloca em um cenário de violência gratuita por falta de perspectivas


O filme Dogman, baseado em fatos, com o roteiro inspirado no episódio que ficou conhecido como Delito del Canaro (registrado no subúrbio de Roma em 1988, quando o ex-boxeador amador Giancarlo Ricci foi assassinado), vai além dos fatos acontecidos e oferece uma leitura mais aprofundada sobre as selvagerias de que os seres humanos são capazes. O diretor Matteo Garrone, que em 2008 dirigiu o fantástico “Gomorra” (filme que aborda um célebre caso da máfia de Nápoles e foi premiado no mesmo ano com o Gran Prix do Júri em Cannes), desta vez dá a entender que, em nosso tempo, é mais fácil para um homem relacionar-se com cachorros do que com outros homens, como ele mesmo declarou ao jornal catalão El Periódico numa entrevista em nov/2018: Não acredito que o homem seja feito para viver em sociedade; valores como ética, moralidade e tolerância nada mais são do que peças de fachada, e é preciso muito pouco para que essa fachada se rompa e surja o animal que todos temos dentro de nós. Esse tema está presente em boa parte dos meus filmes.


Ainda sobre “ser mais fácil relacionar-se com cachorros do que com outros homens”, logo na primeira cena já temos uma amostra disso, em que vemos o protagonista Marcello (Marcello Fonte) com um cão particularmente feroz e, no entanto, em poucos minutos ele consegue amansá-lo, algo que em momento algum ele consegue com o seu “amigo” Simone (Edoardo Pesce). Aqui, Marcello, protagonista, é dono de um pet shop (cujo nome é o mesmo que dá título ao filme), localizado em uma região empobrecida e periférica de Roma; ele lida com diversos tipos de cães, desde o agressivo pitbull da cena inicial a um pequeno poodle que participa de um concurso de beleza. 

Marcello é um homem franzino de fácil relacionamento e bom convívio na comunidade onde vive, pai separado, costuma receber poucas visitas, como de sua pequena filha que o acompanha em sua rotina de trabalho e até em passeios de mergulho, e do amigo Simone, que costuma intercalar seus momentos de sossego e perturbação, quando a relação entre os dois mostra-se peculiar: Simone é viciado em cocaína e, ao mesmo tempo em que o protege pela força daquele de quem se diz amigo, também lhe pede o possível (drogas) e o impossível (participação em assaltos). Durante todo o filme Simone se mostra um homem truculento, de perfil brutamontes, rouba e faz dívidas que nunca pagará graças a sua capacidade de intimidação, que faz questão de colecionar desavenças por onde passa. 

Apesar de se chamarem de amigos, a relação entre Marcello e Simone é guiada pela intimidação e pelo abuso psicológico (obviamente, por parte do mais forte). Além deles há os demais comerciantes da pequena comunidade que também sofrem nas mãos do troglodita e alguns pretendem até lhe dar um destino final, mas sem nenhum acordo, a vingança fica só na vontade. Em um dos assaltos em que Simone intimida Marcello a ser seu cúmplice, Marcello acaba sendo preso sem falar da participação do mentor do crime, mesmo com a polícia local sabendo quem esteve à frente do ocorrido e pedindo para que Marcello colaborasse com as investigações. 

Um ano depois, ele ganha liberdade e a partir daí chegamos a conhecer um outro personagem, aquele Marcello de bom relacionamento com todo mundo à sua volta aqui já não existe mais, tratado por todos da comunidade como traidor, Marcello muda, não fisicamente (pois sua forma continua igual), mas sim em sua personalidade. Ele vai atrás de Simone para receber a sua parte no assalto, sem sucesso e sedento por vingança, ele só pensa em pôr um fim na história e arruma uma maneira de não sofrer mais com as intimidações do encrenqueiro do local.



Dogman é um filme que nos mostra como nós, meros humanos podemos mudar completamente de acordo com determinadas circunstâncias que nos são colocadas especialmente em se tratando de sobrevivência. O filme não mostra nenhuma vivência de Marcello na cadeia, mas sim as consequências que um ambiente completamente hostil como um presídio pode causar, sendo que bastou um ano preso para ele ser tomado por sentimentos que antes passavam bem longe de sua personalidade. Um outro ponto que o filme nos traz é que há algo profundamente errado nas relações humanas contemporâneas. No caso de Marcello, um homem que se preocupa apenas com a filha e consigo mesmo, fora isso, cada um que se vire como puder e sobreviva o quanto der. Mais do que isso, as diferentes espécies de cachorros mostradas no filme, seja o inofensivo poodle ao feroz pitbull (sendo que o poodle pode ser feroz e o pitbull, calmo e pacífico, dependendo da criação do "dono") são claras referências sobre como nós, humanos, que não deixamos de também ser animais, podemos ir rapidamente de uma personalidade a outra.

Nota: 4 momentos em que o personagem Marcello corre riscos ao ajudar Simone e 6 variações de sua personalidade (4,6 de 5)

Filme disponível no TelecinePlay.




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