“Se vejo mulher no meu time já quito” e outros rages “inventados” pelas mulheres em jogos




No dicionário, podemos encontrar a definição de machismo como “exagerado senso de orgulho masculino; virilidade agressiva; macheza.”. Infelizmente, não é difícil encontrar todas essas características em nosso dia-a-dia online. Como jogadora de League of Legends há quase quatro anos, continuo a falar sobre a comunidade gamer mais tóxica do Brasil e em como é difícil balancear o gosto pelo jogo com a experiência in game que temos todos os dias em pelo menos uma partida.


Ao falar disso, ouvimos diversas vezes o argumento “não é só com vocês, todo mundo leva rage”. De fato. Não precisa nem jogar por pdl (pontos de liga), um ARAM é o suficiente. Não existem mais jogos “amigáveis” em League of Legends e nem “começar do 0”, pois, se você criar uma conta hoje, vai jogar contra vários jogadores experientes que não dão espaço para quem está começando agora. Se você for mulher, sinto muito porque você não vai ter um dia jogando em paz. Há três opções: jogar com o chat mutado, aguentar as pessoas que te adicionam e querem te ensinar o jogo porque você é mulher ou aguentar as pessoas que vão te odiar pelo mesmo motivo.




Há uma diferença nisso tudo que muitas pessoas não entendem. Em uma comunidade tóxica, é infelizmente comum você ser chamado de lixo, horrível, que não deveria nem estar ali. Mas isso se torna ainda pior quando não há outros argumentos além do seu gênero. A palavra “mulher” é usada como ofensa. Uma mulher em um elo alto só pode estar lá porque um homem a colocou lá. Uma mulher que jogue de suporte é padrão, só quer tirar seu dinheiro e atrapalhar seu jogo, ser uma “vagabunda” carregada que depois vai mandar uns nudes para o duo. Uma mulher que jogue em outra lane? “Horrível, vai jogar de suporte que é lugar de mulher”.




Parece exagero? Eu já fui ofendida em jogos que ganhei, simplesmente por ser mulher. Não importa se vou bem ou mal em um jogo, ter o nick feminino sempre vai definir que eu sou apenas uma “mulher em busca de um homem para jogar por mim”.

Com certeza um agravante disso foi o surgimento da moda eletronic girls (ou e-girl), que é definido por um modo específico de se vestir bem parecido com o emo, com a diferença de que são garotas que geralmente gostam de jogos e mangás. Alguns homens adoram, outros tem “nojo”. Independente da vertente, se você é mulher e está em jogo sinto muito, todos vão te tratar como inferior.




Algumas e-girls costumam vender fotos, packs (com fotos mais sensuais) e até jogos em duo (como no site egirl.gg, onde você pode pagar uma garota para jogar partidas com você). Não há nada de errado nisso. Streamers e modelos vendem imagem e entretenimento e isso sempre foi comum, mas parece que o grande pecado desse nicho é simplesmente nascerem mulheres.



Em um post mais antigo sobre o tema, eu falei do movimento #mygamemyname, onde diversos streamers e YouTubers famosos jogaram com nicks femininos e mesmo vencendo os jogos, ouviram diversas atrocidades. Estamos criando uma geração online que simplesmente odeia mulheres por não saberem se relacionar. Ao mesmo tempo, criamos uma geração de feministas que passam a odiar homens pelo modo como são tratadas.


O feminismo busca igualdade de tratamento e direitos, mas as mulheres que chegam a esse termo já sofreram tanto que, muitas vezes, passam a odiar homens. O medo e a repressão ainda são muito presentes na vida de uma mulher. Caso você ache que o feminismo é exagerado, pergunte a sua amiga a diferença de tratamento e permissões dela em relação ao irmão do gênero masculino, ou se alguém da família já passou a mão nela ou a fez sentir inferior por ser mulher. Se você conhecer alguma que responda “não”, fico extremamente feliz por ela!

Mas a pergunta é: como podemos buscar igualdade nos jogos?


Muitas pessoas se estressam porque buscam se profissionalizar nos jogos. É difícil aprender e entender mais quando você depende de outras quatro pessoas que podem atrapalhar seu desempenho (por mais que sua evolução pessoal dependa exclusivamente de você), mas todos temos dias ruins! Se uma pessoa está no mesmo elo que você, dificilmente o nível de jogo de vocês não vai ser o mesmo (se você for muito superior, vai sair daquele elo logo). Ofender o seu time não vai fazer ninguém se sair melhor e não vai te ajudar também. E com certeza o sexo não influencia na jogabilidade! Cada um tem seu estilo de jogo e isso sim influencia no seu desempenho. As mulheres continuam se escondendo por trás de nicks masculinos para ter um pouco de paz nos jogos online.




É cansativo bater nessa tecla com frequência entre meus amigos e leitores do site, mas é necessário. Quem sabe um dia não conseguimos melhorar as coisas, não é? Espero que não a comunidade como um todo possa melhorar o posicionamento e o psicológico também para lidar com as frustrações nos jogos. Já enfrentamos tantos desafios diariamente, porque tornar o que devia ser diversão e novos amigos em uma experiência traumatizante?

Posso dizer que, na maioria dos casos de discurso de ódio (machismo, xenofobia, homofobia e racismo) a RIOT bane os responsáveis ao receber um ticket, mas muitos só utilizam outras contas para continuar seus discursos e isso acaba não tendo muito efeito. O que realmente precisamos é mudar nossas atitudes e entender que há pessoas de verdade por trás das telas, que tem problemas e procuram refúgio na internet e que todos devemos nos respeitar. Caso você não entenda respeito de gênero, apenas trate a todos como se fossem personagens do jogo em suas críticas (e boa sorte na sua escalada).



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