#momentotelecine - Annabelle 2: A criação do Mal - Terror metafórico em tempos de pandemia?

 

Antes de os Warren serem convocados para a investigarem, o que vemos em Invocação do Mal (The Conjuring), Annabelle tem duas prequels (em termos cronológicos, não de lançamento). E hoje foi dia/noite de (finalmente!) assistir a Annabelle 2: A Criação do Mal lá no TelecinePlay

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Annabelle e o mal que os homens fazem

Se a realidade, especialmente aqui no Brasil, não já houvesse me provado o quanto o ser humano pode ser estúpido em face a situações em que a estupidez só leva a fins trágicos, eu me questionaria [como costumava fazer antes da pandemia do corona vírus e hoje praticamente peço perdão diariamente quase aos diretores e roteiristas de filmes de terror, zumbis e pandemias: sim, o ser humano pode ser estúpido e horrível, e muitos desses roteiristas e diretores pegarem até que leve nos filmes em comparação com a realidade...], bem, eu me questionaria como as personagens desse filme, por exemplo, entram em quartos "proibidos", guardam fotos "mal assombradas", e estão sempre correndo em direção à encrenca, em vez de fugir delas como se suas vidas dependessem disso - porque dependem. 

E sendo assim, Annabelle 2 - A Criação do Mal acaba sendo um filme interessante, apesar de o primeiro ter um tom diferente, e cheio de referências a O bebê de Rosemary e Sharon Tate e Charles Manson (o que me leva a me lembrar daquela que acho que foi uma bela homenagem de Tarantino, ao contrário do que muitos esperavam, a Sharon, em vez de ajudar a romantizar ainda mais o infeliz do Charles Manson - já escrevi sobre Era uma vez... em Hollywood aqui). 

Outra versão da origem de Annabelle ou realmente sua criação em forma de gente?

A boneca existiu na vida real e é mostrada, não só em fotos no final como com uma réplica no próprio filme, mas é bem sinistro como "outra" Annabelle é "criada" (a que tem ligação com o primeiro Annabelle) e como, curiosamente ou não, ela passa de loira a morena e a boneca é, bem, ruiva. Para se pensar, levando em conta como se julgam mulheres com esses tons de cabelos na História....

Em termos técnicos, visuais e até mesmo narrativos, dá pra notar até mesmo o aumento de orçamento e um investimento maior nos efeitos, inclusive um miasma - e miasmas sempre vão me lembrar InuYasha, não tem jeito <3


O terror psicológico é mais forte do que os jump scares em si, que não aparecem tão excessivamente assim, ok, aparecem bastante, mas em momentos pontuais, e este filme é bem mais gore do que o primeiro... e a atuação da atriz que faz a personagem Janice é incrível, especialmente no momento em que a menina quer descer a escada para fugir do Mal, e, obviamente, a cadeira falha e...-.

"O que quer que aconteça, nada pode apagar o que fizemos juntas", diz Janice a sua irmã, Linda, em um momento tocante do filme. Hum...

Apesar das garotas mortas, em ambos os filmes, temos a ideia de que se trata mesmo é de uma entidade, vista tanto em Annabelle como em Annabelle 2: A criação do mal, e não as falecidas em si, que estão possuindo a boneca Annabelle, que coisinha horrorosa, por sinal; já não gosto de bonecas, bem, gostava das de pano, embora não tivesse nenhuma, até saber que a verdadeira "Annabelle" é uma boneca de pano que parece bonitinha (vejam aí em cima, ahhhh), mas é do tamanho de uma criança, que horror! Mas eu gosto de casas de bonecas, embora creio que jamais teria uma, vai entender o ser humano.... 


Enfim... Parece-me mais aquela ideia de um Mal que se alimenta do sofrimento alheio, especificamente dos em luto, frágeis/fragilizados e/ou inocentes. Mas as melhores partes são aquelas em que o horror/terror se manifesta em plena luz do dia, não guardando para o escuro/a noite sua maleficência, mostrando que pode agir quando quiser, e que não há luz de sol que o espante.

A propósito, a fotografia é ótima, "brincando" como esse jogo de luz e escuro e dia e noite e sombras, o meio termo, a distinção e indistinção ao mesmo tempo entre os extremos. 

"Falar sobre o que nos incomoda às vezes é tudo de que precisamos." - Sr. Mullins

Se aquele poço não foi uma referência direta a Ringu/O Chamado... Bem, Annabelle de fato parece uma espécie de yurei que sempre retorna com sua maldição, apesar de ser totalmente diferente o caso do que já foi falado diversas vezes aqui no site sobre os yurei. Mas como os yurei, "ela" sempre volta...

Me lembrou também, em um bom sentido, vendo algo bom em um filme que fala sobre o Mal, em diversos momentos, não vou dizer porque, pois seria muuuuuuito spoiler, a série de O Exorcista [especialmente a segunda temporada], que também super recomendo. 


Annabelle 2: A criação do Mal no fim se conecta com o primeiro filme, sendo uma prequel da prequel de The Conjuring (A Invocação do Mal). Toda a história de Annabelle (assim como de O Iluminado, do qual pretendo falar em um outro post, mas que já posso adiantar que serve como uma grande metáfora do quanto pessoas desequilibradas tendem a soltar seus ditos "demônios" quando socialmente isoladas, o que estamos vendo, e muito, infelizmente, na vida real, nessa pandemia), tirando todos os elementos religiosos/sobrenaturais, também pode ser uma "bela" metáfora para aprendermos a lidar com nossos próprios demônios e deixar ir o que não deve mais ficar. 


Não expulsar nossos demônios, e sim lidar com eles, pois, como dizia Rainer Maria Rilke, algo assim: "Temo que se meus demônios me abandonassem, meus anjos também fugiriam."  E como as pessoas tentam ir levando situações horríveis em vez de fugir delas o mais rápido possível também pode servir como uma infeliz metáfora de como o ser humano fica preso em relacionamentos abusivos por achar que não tem outra opção, infelizmente.


Ou seja, na vida, tudo é equilíbrio. Noite e dia, luz e sombras... Nada, nem ninguém é 100% puro, bom, otimista... especialmente assim que perde a inocência - como acontece com as crianças no filme. 

Nota: 4 terços e um crucifixo partido, na tentativa desesperada de lidar com alicerces da fé com algo que vai muito além de símbolos, sejam eles religiosos ou não (4,5 de 5)

Teaser e Trailer:
 

 


 

 

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