#AmazonPrimeVideo: Ju-On: O início do fim é, além de um filme péssimo, um desserviço em si do começo ao fim

 

Alguns filmes são apenas ruins, ao passo que outros acabam prestando um desserviço com sua história, e é o que acontece em Ju-On: O início do fim, disponível no Amazon Prime Video. E também um filme pode ser ruim para uns e aclamado por outros, por motivos diversos, visto que a experiência do cinema, como muitas outras, é subjetiva, como já falei aqui antes. Mas Ju-On: O início do fim, tentativa de reboot da franquia, ao contrário do recente O grito de 2020, que é péssimo, por motivos que explicitei aqui, faz um desserviço a pontos questionados e estabelecidos anterior e posteriormente em toda a franquia: mulher e filho assassinados por um marido "problemático", digamos assim, só para começar o debate.

Contém spoilers

Em Ju-On: O início do fim, a contagem de corpos é grande, temos o mesmo estilo já firmado da franquia de contar a história, mas, além de faltar empatia por praticamente todos os personagens, o longa vai mais longe e tenta, em suas mudanças de história de origem/mitologia de Kayako e Toshio, colocar Takeo, o pai assassino brutal de mãe, animal de estimação e filho, sob uma óptica mais empática, e é aí que reside um dos principais problemas do filme em si. 

Kayako é colocada como um estereótipo da mulher louca, que quer ter um filho a qualquer custo, e Toshio é apresentado como mais uma criança diabólica, como já cansamos de ver em vários outros filmes amplamente conhecidos, desde clássicos ocidentais como O bebê de Rosemary a outras variedades sobre o mesmo tema, que são inúmeras. A mulher também é colocada sob a óptica do "mero" receptáculo dessa "criança demoníaca". No entanto, ao colocar essa "nova" visão sobre os onryo/yurei, Ju-On: O início do fim acaba por cometer um imenso "pecado", que prefiro chamar de desserviço: minimizar os sofrimentos da criança e da mãe, além de tentar colocar o pai sob uma óptica menos degradante, como se uma suposta honra e o fato de que ele não era, pelo menos nunca é mostrado como tal, um homem agressivo, "apenas" ausente, fossem justificativas para assassinatos brutais. Alerta de spoiler: Não são!

Este é um tema que deve ser debatido e trazido à tona, ainda mais nos dias de hoje, em que as pessoas estão sendo chamadas a questionar sim as escolhas péssimas feitas no entretenimento que podem causar severos danos na sociedade de modo geral, visto que se molda sim o caráter das pessoas por meio do entretenimento - não apenas pelo entretenimento per se, mas colabora, e muito -, entre outros fatores.

Considerando que a quantidade de crimes hediondos como o do ponto central da trama em diversas instâncias e remakes e reboots existem na vida real, e os casos de homens que se acham no direito de abusar de mulheres e filhos e tudo o mais sem culpa, pois eles não "podem" ser abandonados pela mulher e coisas do gênero, têm um número gritante, é no mínimo triste deparar-se com uma versão de Ju-On em que somos levados a crer que Kayako e Toshio são, de fato, os "culpados" por sua própria situação e opção (além de tudo, Kayako é avisada sobre a morte de uma criança na casa em que vai morar, em condições horríveis, mas aceita o local mesmo assim, sem maiores questionamentos), quando nem de longe isso é abordado dessa forma em vários outros filmes que são pontos mais fortes da franquia, até mesmo no remake americano, The Grudge. 


Se Ju-On: Origins, série original da Netflix, pode até ser questionada por fãs em relação a outros fatores que possam gerar o gostar ou não dela [lembrando que a ausência de Kayako e Toshio não são novidades nessa nova instância de Ju-On, nem no remake americano de 2020, pois isso já havia sido feito na versão asiática também], pelo menos esse "pecado" não é cometido: estupro, abusos físicos e psicológicos, bullying, entre outras coisas hediondas, nada disso é visto nem colocado sob uma óptica de algo leve e corriqueiro. Na verdade, são elementos que vêm a compor todo o background das personagens e dão fomento à maldição e ao horror na série. Já em Ju-On: O início do fim, além do que já expus acima, as mortes estão lá apenas para chocar, o que seria até de se esperar de um filme do gênero, não fosse a forma enviesada como Sayako e Toshio são vistos como seus sendo mais seus próprios vilões do que o verdadeiro assassino e vilão da história, Takeo, marido e pai.

Obviamente não pretendo ver a continuação desse filme - sim, ele tem uma. Só o vi até o fim porque raramente deixo um filme pela metade, e porque queria me certificar do quão péssimo seria. Depois eu vi em diversos sites que se tratava de um dos piores filmes da franquia segundo vários fãs, e até mesmo Sadako vs. Kayako, do qual falei aqui, que era para ser apenas, a princípio, um filme divertido, pelo embate das duas yurei, acaba sendo muito melhor, não só do que Ju-On: O início do fim, como do que outros filmes dessa que já se tornou uma querida entre os fãs, sejam apenas de j-horror ou de terror de modo geral.

Se você é novo no universo de Ju-On, há vários sites, nacionais e internacionais, que indicam os melhores filmes da franquia - eu indico um abaixo -, que falam sobre a série desse ano da Netflix, entre outros assuntos. É só dar uma boa pesquisada no Google para ver o que pessoas diferentes pensam a respeito da franquia como um todo e deste filme em particular, o qual considero a pior versão de Ju-On que já vi até agora. [E aqui vocês podem encontrar tudo que já publicamos sobre Ju-On de modo geral.]

Nota: Menos 5 gatos (pretos ou não) "felizes" por serem, como clichê recorrente, mortos de forma doentia apenas para satisfazer a sabe-se-lá-o-quê-ou-quem. (-5 de 5 - sim, a nota é negativa.)



 
 




 

 

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