#streaming: Espírito de família - A leveza e a humanidade sobre os laços mais importantes em nossas vidas

Temas do cotidiano são recorrentes no cinema francês e isso sempre transcendeu várias épocas, desde os irmãos Lumière ao final do século XIX, passando pelo movimento estético da Nouvelle Vague, dos anos de 1950, e chegando aos tempos atuais. Em Espírito de Família, somos convidados a adentrar o dia a dia de uma família que, após a perda do seu patriarca, se vê com uma série de dilemas e perturbações sobre a própria relação familiar entre si... mas calma, o filme não é triste e nem um pouco pesado, muito pelo contrário, é uma comédia, mas que levanta questões importantes sobre relacionamentos, atenção ao outro, e sobretudo, o real valor que damos para as pessoas mais importantes de nossas vidas. 

O seio familiar é composto pela viúva Marguerite (Josiane Balasko), seu filho mais velho, Alexandre (Guillaume de Tonquédec) com sua esposa Roxane (Isabelle Carré) e seu filho Max (Jules Gauzelin), além de Vincent (Jérémy Lopez) e Sandrine (Marie-Julie Baup), os outros dois filhos de Marguerite com Jacques (François Berléand). 
 
Aqui percebemos que poderiam ser várias histórias contadas a partir de um único acontecimento, que é a perda de um pai, de um esposo e até mesmo de um avô ou de um sogro, porém, quem assume o protagonismo da trama é o filho mais velho do casal e é em torno dele que a estória se desenvolve. 
 
Alexandre é um escritor que dedicou boa parte da vida ao seu trabalho literário de criar histórias, o que o levou a isolar-se e ficar preso no seu mundo de personagens e tramas e esquecer o mundo real a sua volta - temos uma demonstração clara disso logo na primeira cena, quando o pai tenta falar com o filho, chamando sua atenção, enquanto Alexandre só consegue pensar em continuar escrevendo as próximas páginas de seu livro em meio a um bloqueio criativo. Eis que, logo nos minutos seguintes, ouvimos um barulho repentino e logo nos deparamos com Jacques estirado no chão, isso tudo antes dos dez minutos e já somos presenciados com uma das cenas mais emocionantes do filme, num enquadramento que começa com Alexandre indo ver o pai caído frente à porta de uma cabana, e, logo em seguida, a câmera vai se distanciando e mostrando não só a cabana como toda a vida nos arredores, com um trabalho de fotografia que esbanja belezas naturais, aqui cabe até um parênteses, os cenários podem ter suas limitações em termo de referências, mas a fotografia do filme retratando a vida campestre é de encher os olhos, além da paleta de cores que é bem agradável de se degustar enquanto assistimos ao filme.


Apesar de perder seu pai, Alexandre no entanto continua vendo, ouvindo e até mesmo discutindo com ele, porém somente Alexandre consegue vê-lo e ter esse "diálogo", o que, no decorrer do filme, faz-se tornar comum cenas de Alexandre falando sozinho, causando assim uma certa preocupação em sua mãe, esposa e demais familiares. À medida que esses diálogos se intensificam, vamos conhecendo a história de Jacques (François Berléand) e como que era a sua relação com a esposa Marguerite e todos os seus filhos. 
 
O pai de Alexandre foi um grande fotógrafo que viajou o mundo todo a trabalho e, com isso, passou mais tempo trabalhando do que curtindo a família. A partir daí, mais do que conviver com a família em seu lar passamos a conhecer o mais íntimo de suas dores, lamentações e angústias. Enquanto Alexandre carrega o transtorno de ser sido criado com o pai ausente nos momentos mais importantes de sua vida, sua mãe Marguerite, a viúva, se mostra uma mulher alegre e engraçada, mas que após a morte do marido se sente abalada ao ponto de tentar sempre se distrair fazendo tarefas como cortar grama e passear todas as manhãs com as cinzas do falecido. Alexandre ainda enfrenta o difícil drama em correr o sério risco de perder Roxane, sua esposa, que confessa se sentir esgotada com a relação, tendo que dividir a atenção de Alexandre com os personagens de seus livros, além de seu filho Max, que se sente cada vez assustando ao presenciar a situação de Alexandre. Paralelamente a isso, aos poucos vamos conhecendo Vincent, o irmão mais novo de Alexandre e mais atento à família que seu primogênito. Vincent é um empresário de jogadores de rugby que não conhece muito sobre o esporte, apenas se encarrega de negociar os atletas com os clubes; no decorrer do filme, em uma conversa bem pessoal com um de seus agenciados (Papilonio Tokotuu), ele desabafa que quis seguir a carreira do pai de fotógrafo, mas por medo das comparações acabou se "acovardando" e desistindo de seu maior sonho, usando isso como metáfora para incentivar seu agenciado a não desanimar. 

O roteiro não se apega a detalhes, mostra que todo o mal entendido que há na relação entre os personagens pode ser facilmente resolvido apenas com uma conversa durante um café da manhã, seja na cozinha ou até mesmo na cama quando colocada pra fora de casa, ou também pode ser realizando uma partida de qualquer jogo (no caso, rugby) só pra quebrar toda a tensão.
 
Espírito de Família pode não ter um enredo 100% original, afinal conhecemos vários filmes do gênero, porém com aspectos bem mais dramáticos e que nos leva a refletir sobre o luto, aqui temos uma proposta diferente, e ao mesmo tempo a melhor qualidade do filme, que é a sua comédia, e certamente por isso, deixa a desejar na questão do apelo, já que se propõe a seguir por uma outra linha.  
 
Espírito de Família nos ensina que o tempo é precioso, e nunca sabemos o quanto dele nos resta, o que infelizmente faz com que percebamos o valor das coisas mais simples apenas depois que as perdemos, e a obra mostra isso de uma forma bem leve e gostosa de se presenciar, levando-nos até a esquecer que se trata de um pai e um filho que lamentavelmente foram separados pela morte. Dirigido por Eric Besnard, que também dirigiu Cash: O Grande Golpe (2008) e, mais recentemente, O Sentido do Amor (2015), aqui, além de dirigir é ele que também assina o roteiro.

Nota: 4 vezes em que Alexandre mesmo sem chorar reflete sobre seus erros com demais familiares e 5 momentos em que toda a família está reunida no mesmo enquadramento em cena. (4,5 de 5)

Distribuído pela A2 Filmes, e disponível a partir do dia 17/09/20, nas melhores plataformas de streaming.



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