44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: O problema de nascer - Quando o filme em si é o problema...

 

O primeiro dos múltiplos "problemas" com o filme O problema de nascer, que tive a oportunidade de ver em primeira mão na cabine online da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, reside em sua sinopse:

"Elli é uma androide e mora com um homem a quem chama de pai. Durante o dia, os dois nadam na piscina e à noite ele a coloca na cama. Ela compartilha suas memórias e qualquer outra coisa que o homem a programe para lembrar. Memórias que significam tudo para ele, mas que não dizem nada para ela. No entanto, durante uma noite, Elli sai rumo à floresta seguindo um eco que se desvanece. Essa é a história de uma máquina e os fantasmas que todos carregamos dentro de nós.

Vencedor do Prêmio Especial do Júri da seção Encontros no Festival de Berlim. O filme também foi exibido no Festival de San Sebastián."

Com isso, eu esperava um filme poético, sim, mas que lidasse realmente com fantasmas que habitam dentro de nós, e que não passasse mais de um terço de sua duração se focando na pedofilia. Sim, pedofilia. 


Decidi ver o filme pela sinopse, porque sou fascinada pela temática futurista, especialmente androides e os fantasmas das máquinas, como em obras-primas como Ghost in the Shell, Eu, Robô, A.I. - Inteligência Artificial, Ex-Machina, só para citar alguns, sendo o último um que bem reflete vários pontos importantes na consciência de um androide e como ele é moldado, ou não, ao que criamos. 

Se o eterno medo de muitos de que as máquinas se voltem contra nós e/ou adquiram vida própria não impediram o surgimento de tecnologias fantásticas - cujos "problemas" residem muitas vezes mais em seu uso inadequado pelas pessoas do que na tecnologia em si, como mostrado não somente nos filmes supramencionados como no já clássico Matrix, entre muitíssimos outros, além de extensamente abordados em obras literárias de ficção científica, sobre as quais já falei muito aqui, em O problema de nascer, o foco extremamente desconfortante está na pedofilia do "pai" com a androide que serve como uma substituta da filha, que, semi-explicitamente, nos mostra a pedofilia, e implicitamente sugere que isso acontecia com sua filha de verdade, que desaparecera... e, além das cenas "sugestivas", muita nudez infantil (mesmo que com CGI) totalmente desnecessárias e sem propósito algum de questionamentos, aparentemente, apenas exposição, pura e simples.

No último terço do filme, há uma reviravolta que poderia ter sido a abordagem do longa em si, porque, depois de uma hora de pedofilia, tudo o que vem em seguida acaba, por melhor que pudesse ser - e nem é tão bom assim, apenas não é terrível como as duas primeiras partes -, perdendo-se como um eco de uma máquina quebrada em um filme que aborda a pedofilia sem, em momento algum, questioná-la ou mostrar o quão horrível isso é, chegando a parecer mais uma alegoria à pedofilia do que uma crítica a esta, o que, quando fui ler sobre o filme depois, lhe rendeu inúmeras críticas negativas pela forma deplorável como o assunto foi abordado.

Além disso, não entendo como ganhou esse prêmio em Berlim, não só com essa abordagem, mas também o filme é entediante, a fotografia é escura demais, e não de um jeito poético, é meramente ruim, não conseguimos nos conectar com os personagens nem sentir seus supostos desesperos e amargores. 

Nem mesmo em termos de ficção científica o filme se sai bem, pois a forma como a tecnologia do androide é mostrada é tão simplória, embora, por um certo evento, dê para notar o quanto é comum, que não é aprofundada, nem nada, sendo mais um dos muitos pontos (bem) fracos do "longa" [o trocadilho é proposital].

Não recomendo a quem busca algo que a sinopse diz que o filme é, mas que fica bem longe disso. Aliás, simplesmente não o recomendo. Os únicos pontos que poderiam ter sido fortes e causado algum impacto do final teriam provavelmente sido mais bem aproveitados em um curta-metragem, e com uma qualidade visual melhor, e, por isso, e apenas isso, minha nota para este filme é 0,5 - por seus últimos minutos que não chegam, de forma alguma, a fazer valer o suplício de ter assistido ao filme inteiro que nem é tão longo, mas que, pelo tédio e desconforto, e não provocativo, parecia ter durado uma eternidade.

Façam como a filha do "pai" do filme... fujam... deste filme - essa é minha sugestão. E tenho dito.



 

 

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