#MomentoTelecine - Precisamos falar sobre o Kevin (e relacionamentos abusivos e famílias disfuncionais)

 

 

Muita gente foge de filmes e de livros como esse, Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin) e Ensaio sobre a cegueira (Blindness). Eu, não.

Tenho sim os meus momentos em que não os vejo/leio, porque é necessária uma preparação psicológica para realmente sentir esse tipo de drama que se passa em filmes/livros como esses, que mexem com os chamados “demônios” mais profundos e temerosos do ser humano. Porque ler/ver algo do gênero sem se deixar imergir nas sensações causadas pela obra não é realmente ver o filme. É olhar. E de relance ainda por cima.

Para mim, assistir a tais filmes, ler tais livros, bem, isso é algo que funciona como catarse. Sempre gostei de analisar todas as facetas do ser humano, e não há meramente algo bom ou ruim, porque não é tudo preto e branco, e sim diversas camadas que, em termos de cores, abrangeriam muitos tons de cinza.

Em “Precisamos falar sobre o Kevin”, pelo menos no filme, que é “contado” do ponto de vista da mãe (eu ainda não li o livro, mas pretendo fazê-lo, já que se aprofunda mais e tem muito do lado do Kevin também), a sensação que fica no final perdura por dias… pelo menos foi assim para mim, desde a primeira vez em que vi o filme, e quando o revi, também.

Ainda não revi novamente (já vi e revi várias vezes) o filme inteiro, mas revi várias cenas dele, cenas específicas, antes de redigir essa review e… mantenho minha impressão inicial. E, como se trata mais de uma análise do que de uma review em si, sim, vai ter spoilers, muitos.

Sugiro a leitura deste artigo/review apenas a quem viu o filme – e/ou não se importa em saber do que se trata, em detalhes, pois mesmo assim vai saber apreciar a obra que vai muito além do que escrevo aqui…

Como se trata mais de uma análise do que uma mera crítica/review, o texto está cheio de spoilers. O aviso está dado. Leiam se quiserem, por sua conta e risco ^^

 

O filme é simplesmente espetacular. Em suas metáforas visuais, com a mãe lavando o sangue, ou a tinta vermelha que o representa, banhada em sangue, e, pelo menos para os mais sensíveis, dá para notar sensação de culpa que ela tem em relação ao que o filho fez. 


Kevin é uma criança que foge dos padrões do que tanto a sociedade quanto a psicologia consideram “normais”: tem tendências antissociais, é teimoso, birrento, sim, mas ele quer atenção e amor. E parece ser bem inteligente, podendo até estar dentro do espectro autista.. Mas ele, como eu disse, quer atenção e amor, especialmente da mãe. O que ele não tem. Em várias cenas vemos que ela desvia o olhar dele. E olhar nos olhos é muito importante para criar laços de afeto e confiança. Além disso, a mãe ignora o fato de que o próprio filho exibe uma espécie de transtorno dissociativo de personalidade, vulgo, dupla personalidade, com comportamentos distintos perante o pai e a mãe, e beirando a crueldade com a irmã, que desde que nasceu é tratada como querida pelos pais, ao contrário do que aconteceu com ele desde o início. Ele foi o filho indesejado, ela não.


Que fique bem claro que não estou, em momento algum, defendendo os crimes cometidos pelo Kevin, mas sim, analisando as entranhas da situação, e a alienação da família em relação a um filho que sabem sim ser problemático, e nada fazem a respeito. As tentativas de diálogo chegam a ser risíveis, para não dizer que beiram o patético e/ou o trágico. E quebrar o braço de uma criança, no meu ponto de vista, está bem longe de uma tentativa de “corrigir” os problemas de falta de sociabilidade, manipulação e birra da criança em questão. É muito triste. =/

 

Das críticas que li sobre o filme, julgar apenas o menino pelas atrocidades que ele cometeu, pois, sim, o que ele fez foram atrocidades, verdadeiras crueldades, e não apenas com o ato final que culmina com sua prisão… como eu avisei lá em cima, haveria spoilers, e ele fez uma matança na escola em que estudava, além de matar o pai e a própria irmã. Deixando a mãe viva. Por quê? Em vez de se perguntar o motivo, que tal pararmos para pensar no que levou uma criança inteligente àquele ponto?, pois também dá para notar o quanto o Kevin é inteligente, tanto criança quanto adolescente. Um dos meus momentos prediletos do filme é aquele em que o Kevin reflete sobre a vida e começa a falar que as pessoas passam muito tempo vendo TV, e mesmo em programas de TV, elas estão vendo TV! E vendo pessoas como ele…


 

Pela definição de dicionários, pode-se dizer que Kevin é um sociopata, já que um sociopata é definido como sendo “uma pessoa com um transtorno de personalidade antissocial, que exibe comportamentos tais, e que geralmente são resultantes de fatores sociais e do ambiente que cerca o início de sua vida”, o que totalmente se encaixa na situação do Kevin.


Eva (mãe): Você nunca desejou ter um amigo com quem pudesse brincar?

Kevin (ainda criança): Não.

Eva: Você pode gostar.

Kevin: E se eu não gostar?

Eva: Você vai ter que se acostumar.

Kevin: Só porque você se acostuma com algo, não significa que goste.

 


Só que, ao contrário do que muita gente pensa, a sociopatia não é sinônimo de psicopatia, e nem todo sociopata mata. Pode sim levar a coisas mais graves como a psicopatia ou psicose ou outros transtornos mentais, mas, se os pais tivessem analisado o filho, não seria difícil de notar que não era uma criança que se encaixava no que a sociedade considerada “comum”, “normal”. E nem em sua adolescência tentaram remediar isso. 


Na verdade, o pai do Kevin ajudou a criar um “monstro”, como ele acaba sendo visto depois de seus atos criminosos, embora a mãe seja julgada culpada por meio mundo… especialmente ao ensinar o filho com tendências sociopatas a atirar com arco e flecha desde criancinha! Impressionante!, e não no bom sentido.

E, se a mãe era “infeliz” depois do nascimento do Kevin, com a filha, ela agia diferente, com o maior carinho… vejam bem, não estou defendendo os atos criminosos do Kevin, estou apenas analisando  (quase, pois renderia uma tese de mestrado uma análise dessas…) a fundo a parte psicológica desse drama – que poderia ter sido evitado se os pais abrissem os olhos e vissem que tinham um filho com problemas eo levassem a tratamento desde criança. Mas não! É mais fácil ensinar o Kevin a atirar com arco e flecha. Porque isso é algo bem saudável de se ensinar a uma criança. Só que não, claro! Meu nível de indignação com os pais ao ver esse filme foi muito alto e, sim, apesar do que o Kevin fez, em determinado momento, dei uma pausa no filme e comecei a chorar por ele e por todo mundo que não teve uma chance de não se tornar um monstro por não ser ouvido, como disse Marilyn Manson sobre o evento de Tiros em Columbine.


Dá a entender que ela não queria ter o filho, e inclusive ela joga na cara da criança que ela era feliz antes de ele nascer (Olá, Little Fires Everywhere). Ela quebra o braço dele, mas Kevin não conta isso a ninguém, ele diz que se machucou, inclusive para o pai e no hospital.


Embora o título, “curiosamente”, seja “Precisamos falar sobre o Kevin”, em momento algum os pais realmente “conversam” sobre o filho, e nem pensam em algo sério a fazer, nem quando ele é criança, e nem adolescente. E o Kevin tentou se fazer ser ouvido, mesmo de seu jeito “torto”, mas de nada adiantou. O título parece uma zombaria justamente da falta de conversa! Era preciso conversar sobre o Kevin… mas isso foi feito? =/

 

É um filme de causar muita dor a pessoas sensíveis, mas é catártico. Porque fingir que essas coisas só acontecem com os outros, que nada disso não passa de ficção ou, geralmente o caminho “mais fácil”: foi ele quem matou, a culpa é dele, a meu ver é negação ou hipocrisia. Não é só uma questão de em quem colocar a culpa, e sim de analisar o ser humano a fundo e, nessa história, a minha dor fica com o Kevin, pois desde criança, ele só queria ter atenção, amor e carinho. E ganhou o quê? Arco e flecha e aulas para virar especialista no uso de uma balestra! Mais uma vez, impressionante…


Acho triste que muitas pessoas tenham se esquecido do verdadeiro significado de palavras como amor, afeto, atenção, amabilidade, curiosamente, quatro palavras que começam com A, terminando com adoração, fechando com 5. Sim, adoração. De seu jeito torto, Kevin adorava sua mãe.

É trágico, lindo, triste… gera emoções intensas, mas eu recomendo esse filme (e pretendo ler o livro também, que já me disseram ser ótimo, mas agora não é o momento) às pessoas de mente aberta, sem julgarem o Kevin como mero assassino que merece ser condenado, etc.

Mesmo que você tenha ignorado meu aviso de spoilers, e tenha lido tudo até aqui, assista ao filme. O que escrevi não chega nem perto das emoções a serem sentidas ao se ver o filme. E o Ezra Miller no papel do Kevin dá um show de talento, e não é pela beleza, e sim pela atuação. E não somente o Ezra, como a atriz que faz sua mãe, os personagens mirins, o filme é um show de talentos, de uma beleza fotográfica encantadora e assustadora e com mais de uma mensagem, para ser visto e revisto. E para se pensar sobre ele com a mente aberta e não cheia de preconceitos.

Dói. Deixa marcas. Acho impossível esquecer um filme desses. Se os pais jogarem de lado vergonhas e preconceitos e levarem seus filhos com transtornos sociais a psicólogos, terapeutas, psiquiatras se necessário, desde crianças, tais horrores podem ser evitados. Mas o que mais pode evitar esse tipo de horror é algo tão simples que parece ter sido esquecido e que as pessoas falam da boca para fora, mas não o sentem: AMOR.

 ***

Curiosidades: Os nomes escolhidos, Eva e Kevin. Eva, além do significado bíblico, também quer dizer, do latim, “Sopro de Vida”. Kevin, por sua vez, não é um nome bíblico, e acredita-se que sua origem seja irlandesa, e queira dizer algo como “bondoso, honesto e belo desde o nascimento”. Achei importante mencionar o significado destes dois nomes, especificamente, devido ao que ocorre em toda a história; não me parece nem um pouco terem sido escolhidos “ao acaso”.

Disponível no TelecinePlay

Comentários

Postagens mais visitadas